A morte de inocentes expõe a violência do Estado e os riscos para a população e para a tropa
Brasília (DF), 31/10/2025 - Faixa em manifestação contra a operação policial Contenção no Rio de Janeiro. Foto: Valter Campanato/Agência BrasilAs mortes de duas pessoas inocentes em menos de 72 horas, durante ações policiais no Rio de Janeiro, alertam para o risco de agravamento da violência de Estado em ano eleitoral — momento em que as operações policiais vêm sendo tratadas como vitrine em pré-campanhas de candidatos nas redes sociais. No domingo (15), a médica Andréa Marins Dias, de 61 anos, foi baleada após ter o carro confundido com o de suspeitos durante uma perseguição. Três dias depois, na quarta-feira (18), Leandro Silva Souza foi atingido na cabeça dentro de sua casa, no Morro dos Prazeres, durante uma operação policial.
A versão da polícia — de que houve confronto após tentativa de negociação com criminosos que mantinham o casal refém — é contestada pela esposa da vítima, que afirma que os agentes invadiram o imóvel atirando.
Para o pesquisador Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), os dois episódios, embora distintos, refletem uma mesma lógica de atuação. “A prática é atirar primeiro e depois alegar confronto. Muitas vezes, ele nem existiu”, afirma. Segundo Cano, no caso da médica, não havia justificativa para disparos contra um carro em fuga, o que contraria diretrizes nacionais e internacionais sobre uso da força.
“A diretriz federal sobre o uso da força, de 2010, diz explicitamente que não se pode atirar contra um carro em fuga, a não ser que ele represente uma ameaça iminente de morte contra a polícia ou terceiros. Mas o comandante da polícia e o governador incentivam os policiais a fazer isso: atirar primeiro e perguntar depois. Quando dá errado — e só consideram errado quando a vítima é escancaradamente inocente, como era a médica —, a culpa recai apenas sobre o policial. A responsabilidade fica individualizada, quando deveria ser compartilhada por todos que incentivam essa política de ‘bandido bom é bandido morto’.”
No caso da operação no Morro dos Prazeres, Cano avalia que, mais uma vez, os protocolos nacionais e internacionais não foram cumpridos. A própria polícia fluminense dispõe de equipes especializadas em mediação para o resgate de reféns, mas, em vez de acioná-las, os agentes decidiram arrombar a porta com o uso de explosivos e partir para o confronto.
Divulgação / PMERJ“Quando há uma situação de tomada de reféns, a prioridade absoluta é preservar a vida do refém. É assim que atuam os grupamentos de operações especiais em todo o mundo. O tiro letal só se justifica se a vida do refém estiver em perigo iminente. O que ocorreu no Morro dos Prazeres foi o oposto: todos foram mortos, inclusive o refém, porque a vida do refém, para eles, também não valia nada.” Cano também alertou para a reintrodução da “premiação faroeste”, que premia policiais pela morte de supostos suspeitos em confrontos policiais e por apreensão de fuzis. Segundo ele, esse modelo inevitavelmente produz mortes de inocentes. “É fantasia pensar que a polícia vai matar apenas pessoas responsáveis por crimes.”
O pesquisador destaca ainda que essa estratégia não só expõe moradores ao risco, como também coloca os próprios agentes em situação de vulnerabilidade. “Os policiais também são vítimas dessa lógica. Eles assumem os riscos e arcam com as consequências de uma política que não reduz a violência. Nunca deveriam ser premiados por matar, porque a violência que vai é a mesma que volta. Por isso, muitos policiais são executados quando reconhecidos e enfrentam graves problemas de saúde mental, decorrentes do estresse e da rotina violenta. O reconhecimento deveria ser para aqueles que prendem criminosos e desarticulam quadrilhas sem disparar um tiro.”