ANÁLISE

Vista da igreja dos Complexos do Alemão e da Penha, zona norte do Rio. Comunidades participaram da amostra. - Crédito foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil 02/11/2025
“Os moradores não estão dizendo que não querem polícia. Estão dizendo que não querem essa polícia.”
A frase do cientista político João Trajano Sento-Sé, do Laboratório de Estudos da Violência da UERJ, resume o que ele considera o dado mais importante de uma pesquisa inédita realizada por seis organizações da sociedade civil com atuação nos complexos do Alemão e da Penha, Maré e Rocinha para avaliar a percepção de moradores de favelas sobre operações policiais.
À pergunta “Acha que as operações policiais que acontecem nas favelas do Rio de Janeiro precisam continuar a ser realizadas da forma como acontecem?”, 68% dos 4.080 entrevistados na amostra responderam que elas “precisam ser realizadas de outra forma”, contra 24% que afirmaram que “não deveriam ser realizadas operações policiais em favela”.
A pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?” foi realizada pelas organizações Fala Roça, Frente Penha, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Redes da Maré e A Rocinha Resiste, com apoio de instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil, e divulgada em 20 de maio.
O estudo combinou grupos focais e entrevistas presenciais estruturadas realizadas entre janeiro de 2026 e moradores dos quatro territórios pesquisados.
“Os moradores não estão dizendo que não querem polícia. Estão dizendo que não querem essa polícia”, defende Sento-Sé , que analisou o trabalho a pedido da Rede Universitária Segurança Para Todos RJ – Artigo 5º.
Segundo os dados, 73% dos moradores discordam das operações policiais realizadas em seus territórios e 92% defendem mudanças na forma como elas são conduzidas. A percepção de abusos também é ampla: 91% afirmam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia, inclusive entre moradores favoráveis às operações. Já 95% consideram que essas ações não contribuem para aumentar a segurança das famílias.
O cientista político defendeu a relevância do estudo que retratou a percepção de quem vive rotineiramente as consequências da política de segurança do estado voltada para o confronto armado. Segundo Sento-Sé, os resultados desmontam a ideia recorrente de que moradores de favelas rejeitam a presença do Estado ou apoiam grupos criminosos. Segundo ele, o levantamento mostra exatamente o contrário: existe demanda por segurança pública, mas rejeição ao padrão atual de atuação policial.
— As pessoas não estão dizendo “não” para a polícia. Elas não estão dizendo “sim” ao tráfico ou às milícias. Estão dizendo que essas operações não são desejáveis nem legítimas porque são violentas, violam direitos e não produzem resultado — afirmou.
O pesquisador destacou que a principal diferença da pesquisa em relação a levantamentos feitos logo após grandes operações policiais é que ela não mede a reação emocional a um episódio específico, mas a percepção sobre uma rotina permanente de intervenções armadas.
— A pergunta não é sobre uma operação A, B ou C. Ela trata das operações policiais como estratégia de política pública, de um padrão regular de atuação do Estado — explicou.
Na avaliação dele, os entrevistados descrevem um modelo de ação marcado pelo excesso de violência, pela interrupção da vida cotidiana e pela falta de eficácia.
— Os moradores estão dizendo que vivem submetidos a uma rotina de intervenção do Estado que fecha escolas, fecha postos de saúde, impede circulação, impede as pessoas de trabalhar e coloca suas vidas em risco. E, ao mesmo tempo, não resolve o problema que diz combater — afirmou.
Sento-Sé chama atenção para o fato de que mesmo entre os entrevistados críticos às operações há apoio à presença policial, desde que em outro formato.
— O que eles querem é outro padrão de ação do Estado, outro padrão de ação policial, que não passe por esse tipo de operação. Eles querem segurança, mas não desse jeito — disse.
O cientista político também observou que pesquisas realizadas imediatamente após operações de grande repercussão tendem a captar respostas influenciadas pelo impacto emocional do momento. Já este levantamento, segundo ele, retrata uma percepção construída pela experiência cotidiana.
— Existe uma diferença entre medir a reação a um episódio traumático e ouvir pessoas sobre uma vivência contínua, uma rotina marcada por operações recorrentes — afirmou.
Sento-Sé defendeu a importância de pesquisas feitas por pesquisadores e moradores dos próprios territórios.
— É muito importante que seja uma pesquisa feita por pesquisadores locais, que têm acesso maior aos entrevistados e conseguem captar percepções que muitas vezes não aparecem em levantamentos tradicionais. É provável que algumas autoridades tentem desacreditar os resultados da pesquisa, insinuem que são manipulações de quem defende traficante. Essa é uma estratégia antiga de desqualificar as percepções dos setores mais vulneráveis à violência do Estado e ao arbítrio das ações policiais nas favelas e periferias do Rio de Janeiro. Não há nada na pesquisa que indique um alinhamento com o crime organizado ou um posicionamento hostil às polícias. Ao contrário, o que a pesquisa explicita é que essas populações querem segurança, respeito e garantia de que seus direitos serão preservados — disse.
PESQUISA INÉDITA TRADUZIU A PERCEPÇÃO DE QUEM VIVE A ROTINA DA VIOLÊNCIA
De acordo com a diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, que coordenou o estudo, o objetivo foi compreender as percepções e sentimentos de quem convive diretamente com as operações policiais. “As respostas mostram que há um quadro de esgotamento da população por conta das operações violentas, o reconhecimento dos excessos dos policiais e uma evidente falta de legitimidade dessa que se tornou, ao longo dos anos, a única política de segurança em favelas”, afirmou.
Os resultados da mostra trazem uma percepção bem diferente da revelada pela pesquisa realizada imediatamente após a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou 122 mortos em outubro de 2025, quando o governo anunciou que haviam aprovado aquela ação policial, a mais letal da história do Rio.
O levantamento também abordou operações com alto número de mortos Entre os entrevistados, 85% disseram que ações desse tipo não deveriam voltar a acontecer.
A discordância em relação às operações é ainda maior entre jovens e pessoas pretas. Entre moradores de 18 a 29 anos, a rejeição chega a 79%. Já entre pessoas pretas, alcança 81%. A percepção de racismo nas operações também aparece de forma significativa: 61% afirmam que há racismo na maneira como essas ações são planejadas e executadas nas favelas.
Nos grupos focais, moradores relataram experiências marcadas por medo, humilhação e restrição de circulação. “A operação não entra só com arma; entra com humilhação”, disse um participante. Outro resumiu o impacto cotidiano das ações: “A vida para quando tem operação.”
A pesquisa mostra ainda que as operações policiais são parte constante da rotina dos moradores. Quase todos os entrevistados — 93% — disseram já ter vivenciado diretamente operações policiais ou ter familiares afetados por elas. Entre os impactos mais citados estão restrições de circulação, invasões de domicílio e tiroteios.
Para Thainã de Medeiros, do Instituto Papo Reto, os resultados evidenciam violações de direitos básicos. “Os números mostram que as operações incidem em direitos fundamentais de grande parte dos moradores, como o direito de ir e vir, de ter acesso ao trabalho, à saúde e à educação”, afirmou.
O estudo também investigou sentimentos relacionados à atuação policial e à presença de grupos armados. No total, 78% dos moradores declararam sentir medo da polícia durante as operações. Entre os favoráveis às ações policiais, o medo da polícia (59%) supera o medo dos grupos armados (53%). “A gente vive entre duas violências”, resumiu um dos participantes dos grupos focais.
Vilson Luiz, do Coletivo Frente Penha, avalia que os dados revelam uma situação permanente de tensão nos territórios. “Grupos armados controlam os territórios e o Estado, que deveria protegê-la, também produz medo. Independentemente do posicionamento, ninguém se sente seguro”, afirmou.
Os entrevistados também demonstraram ampla rejeição à violência policial. Apenas 3% concordaram com a afirmação de que “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar”. Já 90% consideram os excessos policiais inaceitáveis, inclusive entre moradores favoráveis às operações.
Nos grupos focais, a percepção sobre a letalidade apareceu associada à desesperança e à naturalização da violência. “Não é defesa da morte; é sensação de perda de controle”, afirmou um participante. Outro acrescentou: “Tem apoio que nasce do desespero, não da concordância.”
Para Arthur Dóring,do Instituto Raízes em Movimento, os resultados apontam para a necessidade de revisão urgente do modelo de segurança pública adotado nas favelas. “Os dados mostram que o morador de favela não aguenta mais que a presença estatal seja associada ao medo e à violência em seus territórios”, afirmou.
