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Universidades lançam rede para propor novas soluções à violência no Rio

Ligia Bahia, Marcelo Burgos, Carolina Grillo, Marcio Portes de Albuquerque, José da Costa Filho, Gulnar Azevedo, Roberto Medronho, Monica Savedra, Marli Marques, Jackeline Lima Farbiarz , Edinilsa de Souza, Tatiana Roque, Débora Foguel, Ignacio Cano, Alexandre Werneck, Michel Gherman, João Trajano Sento-Sé, Lucas Pedretti, Lenin Pires

Diante do agravamento da violência no Rio de Janeiro — que impacta milhões de moradores, compromete serviços essenciais e afeta o cotidiano urbano — pesquisadores de diferentes instituições acadêmicas lançaram a Rede Universitária Segurança Para Todos RJ – Artigo V. A iniciativa busca fortalecer o uso de dados e evidências na formulação de políticas públicas e ampliar o diálogo entre ciência e sociedade.

O encontro na sede do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) reuniu especialistas, reitores e dirigentes de universidades e centros de pesquisa com o objetivo de consolidar uma articulação inédita no estado. A proposta central é contribuir para um debate mais qualificado sobre segurança pública com base na ciência e em evidências, em um cenário marcado pela escalada da violência e pela repetição de estratégias consideradas ineficazes por pesquisadores.

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Marcelo Burgos, observado por Ignacio Cano

Abrindo o encontro, o professor Marcelo Burgos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, situou o surgimento da Rede Universitária Segurança Para Todos RJ como uma resposta direta à reação social diante da operação policial de 28 de outubro de 2025. “A iniciativa nasce de um processo de indignação diante não apenas da magnitude da operação, mas da reação social que ela provocou”.

Segundo ele, o episódio — que resultou em mais de uma centena de mortes — revelou um quadro preocupante de naturalização da violência. “Nos assustou uma certa naturalização daquilo que não temos como não chamar de barbárie”, afirmou.

Para Burgos, esse cenário funcionou como um “gatilho” para que pesquisadores de diferentes instituições retomassem e ampliassem uma articulação já existente, agora de forma mais estruturada. Ele ressaltou que o estado reúne um acúmulo significativo de conhecimento acadêmico sobre segurança pública, produzido por universidades e centros de pesquisa, mas que esse patrimônio ainda é pouco incorporado ao debate público.

"Era preciso construir um espaço para que a ciência pudesse falar, para tirar esse debate do lugar para o qual ele foi arrastado, atravessado por emoções como ódio e ressentimento"

Marcelo Burgos

O professor também destacou o caráter estratégico do lançamento da rede em ano eleitoral e criticou ainda a repetição de políticas de segurança baseadas em operações policiais de alta letalidade, que, segundo ele, não têm conseguido conter a expansão de grupos armados. “É preciso abrir novos caminhos”, disse.

Como diretriz inicial, ele explicou que a rede se organiza em torno de quatro eixos principais: o domínio territorial de grupos armados, o uso da força policial, o pacto federativo e as condições de trabalho dos agentes de segurança. Esses temas, segundo Burgos, devem orientar tanto a produção de conhecimento quanto a atuação pública da iniciativa.

O professor João Trajano Sento-Sé, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, apontou a operação policial de 28 de outubro de 2025 como um marco simbólico. “A magnitude da operação e o número de mortos, inéditos até para os padrões do Rio de Janeiro, eram suficientes para impactar a sociedade”, afirmou. No entanto, o que mais o surpreendeu foi justamente o contrário: “Ela não foi vivida como um trauma coletivo por uma parte bastante expressiva da sociedade fluminense e também das elites políticas”.

O professor destacou que, ainda durante a operação, autoridades públicas passaram a celebrar a ação, apresentando-a como um marco na segurança do estado. “Era constrangedora a forma como se exibiam como especialistas, descrevendo estratégias como o chamado ‘muro do BOPE’, que acabou produzindo exatamente o resultado que vimos”, disse.

Para Sento-Sé, a ausência de reação coletiva diante de um episódio dessa magnitude revela um processo mais profundo.

“Estamos diante de um processo avançado de naturalização da barbárie”

João Trajando Sento-Sé

Segundo ele, traumas sociais costumam provocar mudanças estruturais — inclusive políticas —, mas, nesse caso, não houve inflexão.

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Professor João Trajano Sento-Sé, LAV- UERJ

O professor também destacou que há caminhos alternativos já testados no Brasil, baseados na articulação entre diferentes setores. Ao citar experiências como o Sistema Único de Saúde (SUS), a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ele apontou um modelo de construção de políticas públicas ancorado em três pilares: pesquisadores, sociedade civil e profissionais das áreas envolvidas.

“É essa articulação que permite construir políticas duradouras, independentemente do governo de plantão”.

Ao final, ele ressaltou que a criação da rede responde a um “imperativo republicano” diante da tragédia e da reação social observada. “Foi esse desafio que nos mobilizou. Estamos aqui para fazer o que nos cabe como pesquisadores e professores de universidades públicas”, concluiu.

Na mesma linha, o professor Alexandre Werneck, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, destacou o papel das emoções no debate público sobre segurança. Segundo ele, a raiva tem se tornado um elemento central na formulação de políticas, substituindo abordagens baseadas em dados.

“A raiva tem sido mobilizada como justificativa para ações baseadas no uso intensivo da força”, afirmou. Para o pesquisador, essa emoção atravessa discursos políticos, decisões institucionais e o cotidiano da população, influenciando percepções sobre violência.

“A raiva não é uma boa bússola para a tomada de decisões”

Alexandre Werneck

Werneck defendeu que enfrentar esse componente emocional é essencial para a construção de políticas mais eficazes e orientadas à garantia de direitos. Segundo ele, a rede pretende contribuir justamente para requalificar o debate público e fortalecer uma abordagem baseada em evidências.

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Pesquisador Alexandre Werneck NECVU- UFRJ

Já o professor Lenin dos Santos Pires, do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da Universidade Federal Fluminense (INCT- InEAC-UFF), destacou a necessidade de analisar a violência a partir do contexto político do estado. Ele apontou que crises institucionais recentes e disputas eleitorais têm reforçado a centralidade da segurança pública no debate político.

Para Pires, há uma crescente sobreposição entre política institucional e dinâmicas do crime organizado. “A própria estrutura de governança incorpora a atuação de grupos armados”, afirmou. Segundo ele, esse cenário evidencia a complexidade do problema e a necessidade de abordagens que vão além do endurecimento penal.

O pesquisador também ressaltou os impactos das políticas atuais no cotidiano da população, como interrupções em serviços públicos e aumento da insegurança. Além disso, destacou o papel da produção acadêmica interdisciplinar na compreensão dessas dinâmicas e na formulação de alternativas.

A professora Carolina Grillo, também da UFF reforçou a importância do uso de dados na construção de políticas públicas. Coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, ela lembrou que o estado já teve momentos de maior diálogo entre pesquisadores e gestores, o que resultou em avanços institucionais.

No entanto, segundo a pesquisadora, esse diálogo foi interrompido, e políticas passaram a ser formuladas sem considerar evidências disponíveis.

“Há uma insistência em repetir um modelo baseado em operações policiais que já se mostrou ineficaz”

Carolina Grillo

Grillo destacou que essas operações geram impactos significativos, como fechamento de escolas e unidades de saúde, mas têm efeitos limitados no controle da criminalidade. Ela também apontou o aumento recente da letalidade policial, após mudanças no cenário institucional. “Há uma insistência em políticas baseadas no aumento de prisões e mortes, apesar das evidências de que não funcionam”, disse.

A pesquisadora ressaltou ainda a importância da produção de dados independentes, especialmente sobre fenômenos pouco contemplados pelas estatísticas oficiais, como operações policiais e controle territorial armado.

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Carolina Grillo, do Geni / UFF

Sob a perspectiva da saúde pública, a pesquisadora Edinilsa Ramos de Souza, do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES) da Fundação Oswaldo Cruz, chamou atenção para os impactos da violência tanto sobre a população quanto sobre os próprios agentes de segurança.

Segundo ela, os serviços de saúde estão sobrecarregados por vítimas de violência, mas é preciso também olhar para os profissionais que atuam na linha de frente. “Eles relatam que são policiais 24 horas por dia, sempre em estado de alerta”, afirmou.

A pesquisadora destacou que esses agentes enfrentam jornadas extenuantes, alto nível de estresse e condições de trabalho precárias, com impactos significativos na saúde física e mental. “Há relatos de que se sentem como uma ‘bomba prestes a explodir’”, disse.

Edinilsa também apontou o aumento de casos de sofrimento psíquico e suicídio entre policiais, além da dificuldade de acesso a apoio psicológico. Para ela, qualquer política de segurança eficaz precisa considerar essas condições.

“Não é possível pensar em soluções sem olhar também para quem está na linha de frente”

Edinilsa Ramos de Souza
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Edinilsa de Souza, do Claves / Fiocruz

Encerrando a mesa dos pesquisadores, o professor Ignacio Cano, do Laboratório de Análise da Violência (LAV), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, defendeu a necessidade de uma mudança estrutural no modelo de segurança pública.

Ele criticou o fato de políticas na área serem frequentemente baseadas em emoções ou interesses eleitorais, ao contrário de outros setores que utilizam diagnósticos e avaliações. “Se matar resolvesse o problema, ele já estaria resolvido há muito tempo”, afirmou, ao citar dados sobre a letalidade policial no estado.

Cano argumentou que o modelo de enfrentamento baseado na lógica de guerra é falido e não oferece soluções duradouras. Para ele, o Rio de Janeiro não está condenado à violência e pode construir alternativas a partir do conhecimento já produzido.

“Precisamos sair das nossas bolhas e dialogar com a sociedade”

Ignacio Cano
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Professor Ignacio Cano

Uma das fundadoras e articuladora da Rede, a professora Ligia Bahia defendeu que cabe também à academia pensar os problemas contemporâneos.

Presidente da ADUFRJ, Ligia Bahia em pé observada pelos professores Ignacio Cano, Lenin Pires, João Trajano Sento-Sé, Marcelo Burgos, Alexandre Werneck; Edinilsa de Souza, Carolina Grillo

“Para nós, a perspectiva de contribuir para uma abordagem racional sobre segurança pública é vital. A fórmula matar e deixar morrer fracassou sucessivamente, mas segue orientando as políticas públicas. Precisamos mudar isso. A pesquisa tem o que dizer, há alternativas não letais de combate ao crime”

Ligia Bahia

Fotos por: Ana Beatriz Plácido