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“Precisamos olhar para os profissionais da segurança pública como trabalhadores”

5º Encontro da Rede Artigo 5º RJ - fotos de Ana Beatriz Plácido

 

Exposição permanente ao perigo, plantões extenuantes, supressão das folgas, rigidez hierárquica, falta de recursos e de reconhecimento estão entre os fatores que afetam a saúde dos profissionais de segurança pública

Há uma contradição no modo como a sociedade costuma enxergar os profissionais de segurança pública. Espera-se deles força, resistência, coragem e disponibilidade permanente para enfrentar situações de risco. Mas pouco se pergunta sobre o preço físico e emocional dessa atividade — e menos ainda sobre o que acontece quando esse trabalhador adoece.

Foi essa questão que atravessou o 5º Encontro da Rede Universitária Segurança Para Todos RJ – Artigo 5º, realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Para discutir “Condições de Trabalho e Saúde dos Profissionais de Segurança”, a rede reuniu as experiências e estudos de profissionais da área da saúde e da segurança.

Entre os palestrantes estavam a comissária de Polícia Civil Meire Cristine, a tenente-coronel cirurgiã-dentista da PMERJ, Adriane Batista Pires Maia, o 2º sargento e psicólogo clínico Higor Pontes, a presidente do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), Dayse Miranda e a psicóloga e pesquisadora do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde CLAVES/Jorge Careli, da ENSP, Edinilsa Ramos de Souza. Coube à pesquisadora Fátima Cecchetto, da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz, a coordenação da mesa.

Diante de uma realidade em que o suicídio é a principal causa de mortes violentas entre policiais, os pesquisadores defendem que o sofrimento dos agentes de segurança pública não pode mais ser compreendido apenas como um problema individual. Mas, se o problema está na natureza do trabalho, como preveni-lo? Estudos apontam que antes da depressão, do burnout, do transtorno de estresse pós-traumático ou do suicídio, existe um cotidiano marcado pela exposição ao risco, sobrecarga de trabalho, falta de recursos, rigidez hierárquica, pouco suporte institucional e, em muitos casos, pela necessidade de esconder o próprio sofrimento.

Um estigma que se reflete nas corporações: embora bicentenárias, elas ainda hoje não guardam informações ou estatísticas confiáveis sobre ferimentos, doenças relacionadas ao trabalho, afastamentos, sofrimento psíquico e suicídios.

O fio do novelo

Primeira a falar, a tenente-coronel de Polícia Militar Adriane Batista Pires Maia contou que chegou à pesquisa justamente a partir dessa lacuna. Com 26 anos de atuação na corporação e trabalhando no Hospital Central da PMERJ como cirurgiã bucomaxilofacial, ela percebia diariamente a chegada de policiais feridos por armas de fogo. Enquanto as mortes em confrontos ganhavam visibilidade, aqueles que sobreviviam aos ferimentos permaneciam praticamente invisíveis.

Tenente-coronel Adriane Maia

Tenente-coronel Adriane Maia

“A quantidade de policiais que chegam feridos me parecia ser muito maior do que a gente conhecia enquanto sociedade, enquanto academia”. Para dimensionar esse universo, foi necessário recorrer aos prontuários médicos. Entre junho de 2015 e dezembro de 2017, a pesquisa identificou 475 policiais militares da ativa atendidos no Hospital Central da PMERJ em decorrência de ferimentos por arma de fogo. Desses, 77,3% estavam em serviço e 97,9% pertenciam ao grupo de praças. A maioria era homem: 98,3%.

Os ferimentos, contudo, não eram eventos menores. Entre os casos analisados, 16,7% dos policiais precisaram de cirurgia de urgência e oito morreram durante a internação. Entre os casos cuja localização era conhecida, 51,2% dos tiroteios ocorreram em regiões de comunidades, durante incursões policiais.

A pesquisa chamou atenção para uma dimensão da vitimização policial que costuma desaparecer das estatísticas: a morbidade, ou seja, aqueles que são feridos, mas sobrevivem.

Na apresentação, Adriane explicou como chegou aos números:

“Eu comecei a me debruçar a respeito da possibilidade de descobrir esses dados e descobri que a gente não tem dados. A verdade é que tinha um apagamento muito grande dos dados no que diz respeito à morbidade, ou seja, aqueles policiais feridos por arma de fogo, que não morreram.”

Para ela, conhecer esses casos é fundamental para avaliar as operações e as condições de trabalho. “A maioria das morbidades ocorreu em confrontos em operações sobe e desce das comunidades. Se os que produzem segurança constroem políticas de segurança pública estão realmente preocupados com a necessidade de redução da vitimização, é fundamental pensar no tipo de operação que se realiza.”

Os números encontrados no Hospital Central foram comparados com informações disponíveis em outros países. Adriane destacou a dificuldade de estabelecer um parâmetro brasileiro justamente porque não existe uma base nacional consistente sobre policiais feridos por armas de fogo. Os dados americanos ajudam a dar a dimensão do problema: “Num universo de 586.446 profissionais de segurança em todo país, foram notificados 282 casos de ferimentos por arma de fogo em todo o território estadunidense no ano de 2016”.

Outro dado importante revela a brutalidade da política de enfrentamento armado nas favelas. O levantamento feito por Adriane abarcou apenas o HCPM. Dos 475 policiais feridos em 30 meses, a maior concentração ocorreu na Área Programática 3, que reúne bairros da Zona Norte, com destaque para Penha, Complexo do Alemão, Manguinhos e Maré.

O estudo evidencia, assim, que a vitimização policial não pode ser medida apenas pelo número de mortos. Há também os que sobrevivem aos confrontos, carregam sequelas físicas e podem enfrentar consequências psicológicas e sociais durante anos. Entre os relatos apresentados, o de um policial com sequela provocada por tiro no rosto: “Autoestima, dra. Não tenho nenhuma. Vergonha de ficar com o queixo torto”.

O que não é registrado não entra na política pública

A policial civil aposentada Meire Cristine chamou atenção para uma etapa ainda mais básica: reconhecer e registrar o adoecimento relacionado ao trabalho. Coordenadora de Segurança Pública e Saúde do Trabalhador do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), ela falou também a partir da própria experiência.

Em 2009, Meire sofreu Síndrome do Pânico. Depois de adoecer, ela passou por dois anos de tratamento psiquiátrico enquanto acompanhava colegas que morriam por suicídio.

Durante o tratamento, se perguntava se alguém havia investigado a relação entre sua doença e as condições em que trabalhava.

“Quem investigou a minha doença? Alguém investigou a minha doença e viu que ela tinha talvez relação com o meu trabalho?”

A pergunta se transformou em objeto de pesquisa. Para Meire, existe uma dificuldade anterior à própria prevenção: reconhecer o profissional de segurança pública como trabalhador submetido a riscos ocupacionais.

“Existe uma grande lacuna que não reconhece esse profissional da segurança pública como um trabalhador.”

Segundo ela, esses profissionais precisam ter suas condições de trabalho acompanhadas, equipamentos adequados, avaliação periódica de saúde e, sobretudo, seus adoecimentos relacionados ao trabalho registrados e investigados.

A experiência pessoal também a levou a aprofundar a investigação. O percurso resultou em pesquisas de mestrado e doutorado sobre trabalho, saúde e sofrimento psíquico.

Marcelo Burgos

Comissária Meire Cristine

 Sua conclusão é que não existe prevenção efetiva do suicídio sem uma investigação das condições de trabalho:

“Para falar de prevenção do suicídio, é preciso conhecer as condições de trabalho. É preciso entender a relação da saúde desses profissionais da segurança pública com o trabalho.”

Em um levantamento de dez anos, entre 2015 e 2025, realizado a partir de registros de sistemas de notificação e da Classificação Brasileira de Ocupações, Meire identificou apenas 12 ocupações relacionadas à segurança pública reconhecidas nos sistemas analisados, abrangendo algumas funções da Polícia Militar, poucas da Polícia Civil e registros da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.

A consequência é direta: quando a ocupação não está corretamente identificada, torna-se mais difícil estabelecer a relação entre a doença e o trabalho.

No período analisado, foram registrados 3.201 acidentes de serviço. Diante do número, Meire foi categórica:

“Alguma coisa está errada.”

Para ela, cuidar da saúde do profissional não é uma questão secundária diante da missão policial. É uma condição para que ele possa exercê-la com dignidade.

“É preciso que esse profissional esteja bem para atuar de forma exitosa na sua missão, na sua resposta, na manutenção da ordem pública. Ninguém deveria portar uma arma se estiver doente.”

Meire também citou o Decreto nº 50.103, de janeiro de 2026, que instituiu o Pró-Saúde Mental, iniciativa da qual participou no contexto das discussões da ADPF 635. A criação do programa, segundo ela, representa uma resposta institucional, mas o desafio é transformar essa resposta em acompanhamento permanente ao longo da carreira.

Quando o trabalho adoece

A relação entre trabalho policial e sofrimento psíquico foi apresentada por Higor Pontes, policial militar da ativa e segundo-sargento, com quase 16 anos de corporação. Em sua dissertação, ele realizou uma revisão integrativa de 32 trabalhos: 15 artigos, 15 dissertações e duas teses.

A maior parte das pesquisas analisadas estabelece relação entre o trabalho policial militar e o sofrimento psíquico. Entre os fatores identificados estão a exposição permanente ao risco, a precariedade dos equipamentos, a falta de recursos humanos e materiais, a carga elevada de trabalho, as condições insalubres, a rigidez hierárquica, o assédio moral e a falta de apoio das chefias. Também aparecem na literatura a ausência de folgas, os turnos, as mudanças inesperadas nas escalas e a exposição contínua à violência, à morte, à miséria e ao desamparo. As consequências podem atingir a saúde física e mental e repercutir nas relações familiares e sociais.

Daniel Hirata

Daniel Hirata

No centro de sua apresentação, Higor defendeu uma mudança de perspectiva:

“Há necessidade de olharmos para esse policial como um trabalhador. Muito mais do que um executor de ordens, muito mais do que um elemento numa cadeia hierárquica, ele é um trabalhador.”

Os dados reunidos na pesquisa ajudam a dimensionar essa realidade. Um dos estudos citados por Higor registrou 9.058 licenças para tratamento de saúde na PMERJ entre 2013 e 2016. Dessas, 2.751, pouco mais de 30%, foram concedidas por questões psicológicas ou psiquiátricas. Outro levantamento apontou que 37,5% dos profissionais da PMERJ relatavam sofrimento psíquico.

A literatura também registra aumento do comprometimento por burnout com o tempo de serviço e associa a baixa qualidade dos equipamentos, a ausência de folgas, o trabalho em turnos e a falta de apoio da supervisão à exaustão emocional.

Há ainda um obstáculo que não está apenas nas condições materiais: o estigma.

Pesquisas reunidas por Higor mostram que policiais afastados por sofrimento psíquico podem ser vistos como fracos, incapazes ou como pessoas que tentam escapar das responsabilidades. Na PMERJ, estudos apontam tabus em torno da doença mental e relatos de distanciamento de policiais depois de uma tentativa de suicídio ou do início de tratamento psiquiátrico.

A doença, nesse contexto, pode produzir uma segunda violência: além do sofrimento, o trabalhador passa a enfrentar o estigma de ter adoecido.

Para Higor, é preciso lutar por uma cultura de dados na instituição.  Para ele, o fato de o policial ainda não ser amplamente reconhecido como trabalhador pode fazer parte de “uma construção de uma narrativa que serve algum interesse”. Como pesquisador, ele também questionou se a ausência de dados sobre a saúde dos policiais é apenas resultado de falhas institucionais ou se existe uma escolha por trás dela.

“Essa falta de dados é um descuido ou é uma decisão? É um descuido, uma falta de condições ou é uma escolha?”, provocou.

O suicídio e a dificuldade de contar

A pesquisadora Dayse Miranda, que há quase duas décadas estuda mortes violentas intencionais, dedicou sua apresentação ao suicídio entre profissionais de segurança pública. A investigação nasceu de uma pergunta que orientou parte de sua trajetória acadêmica: “Por que policiais se matam?”. Segundo ela, durante muito tempo o tema foi praticamente ignorado pelas instituições. Em 2005, quando iniciou suas pesquisas, o suicídio policial não estava na pauta institucional nem era tratado como uma questão de saúde pública. “Parecia que o problema não existia”, relatou.

A dificuldade de investigar o fenômeno era agravada pela ausência de informações organizadas. Dayse contou que, nos primeiros estudos, a equipe precisou trabalhar com informações informais para mapear mortes e tentativas de suicídio. Foi nesse contexto que surgiu o boletim de mortes violentas intencionais autoprovocadas e, posteriormente, o GEPESP, grupo de estudos criado para compreender se o suicídio era uma questão de saúde pública dentro das instituições de segurança. No Rio de Janeiro, o levantamento inicial encontrou 22 tentativas e 72 relatos de ideação suicida. Ao analisar registros da Polícia Militar, os pesquisadores encontraram uma enorme instabilidade nos números: em determinados anos apareciam 13 tentativas, em outros cinco ou nenhuma. “Ninguém sabia responder”, afirmou.

A partir de novas pesquisas, o problema foi ganhando dimensão. Um estudo realizado em 27 unidades da Federação mapeou 650 tentativas de suicídio e 3.325 relatos de ideação suicida entre policiais militares.

Luiz Eduardo Soares

Luiz Eduardo Soares

Em outra pesquisa, realizada por meio da rede de ensino a distância da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), foram obtidas cerca de 18 mil respostas de policiais militares. Para Dayse, os relatos revelaram uma categoria profissional submetida a intenso sofrimento e também mostraram a importância de uma cultura de dados capaz de tornar esse sofrimento visível.

 Mais recentemente, os levantamentos do IPPES registraram 818 mortes por suicídio entre profissionais de segurança pública da ativa, entre 2020 e 2024, além de 238 mortes entre policiais inativos. A pesquisadora destacou ainda a necessidade de estudar separadamente os homicídios seguidos de suicídio e os feminicídios seguidos de suicídio, por apresentarem dinâmicas e fatores associados próprios.

Para Dayse, porém, os números são apenas uma parte da questão. Segundo ela, os poucos programas de prevenção existentes no país tratam de forma isolada a questão. Ela criticou a tendência de tratar o policial que tenta ou comete suicídio como o único responsável: “Ele que é o doente, ele que é problemático.” Segundo a pesquisadora, essa individualização impede que sejam examinadas as estruturas institucionais que produzem sofrimento.

“O que a gente aprendeu nos últimos 15 anos é que para entender o suicídio a gente tem que trabalhar com um modelo ecológico, onde você tem de um lado as questões situacionais, organizacionais, individuais e sociais. Há uma total desvalorização da sociedade em relação ao policial e internamente entre pares e seus líderes. Então fica muito difícil para esse tema se tornar uma pauta de interesse público”.

A dor que chega à família

A pesquisadora Edinilsa Ramos deslocou o olhar dos policiais mortos ou vitimizados para as pessoas que ficam. Em sua apresentação, falou sobre mães, esposas e filhas de policiais mortos ou vítimas de tentativas de homicídio e comparou suas experiências às de familiares de civis mortos por intervenção policial. O resultado, segundo ela, foi revelador: “Tem muito pouca diferença entre essas pessoas. A dor sentida é basicamente a mesma.” A violência, afirmou, produz efeitos semelhantes sobre os familiares, independentemente de quem tenha sido a vítima direta.

Psicóloga Edinilsa Ramos

Psicóloga Edinilsa Ramos

Essas pessoas, classificadas pela pesquisa como vítimas indiretas, secundárias ou co-vítimas, também adoecem. Edinilsa relatou que, meses depois das mortes ou de episódios violentos, são frequentes problemas físicos e mentais, que podem surgir ou se agravar a partir do trauma. Em alguns casos, a experiência se repete: “mulheres que já perderam um irmão ou marido acabam perdendo também um filho”. Para a pesquisadora, um dos aspectos mais marcantes encontrados nas entrevistas foi “o completo desamparo dessas pessoas”, que muitas vezes não recebem apoio da instituição policial ou do Estado.

A falta de informação agrava esse desamparo. Segundo Edinilsa, familiares procuravam delegacias, Justiça e serviços de saúde sem conseguir respostas sobre o que havia acontecido. Diante da ausência de apoio institucional, muitas encontraram suporte na organização coletiva com outras mães que passaram pela mesma experiência. Ela citou grupos como as Mães de Manguinhos, em que mulheres se apoiam mutuamente desde os primeiros momentos após uma morte. “Elas passam não só a se sentir apoiadas, mas começam também a apoiar outras mães”, relatou.

Os efeitos da violência, porém, não se limitam à saúde. Edinilsa contou casos de familiares que perderam o emprego por precisarem acompanhar investigações e buscar Justiça, além de mudanças na rotina, isolamento, perda do lazer e até deslocamentos forçados por medo e ameaças. Quando a vítima sobrevive com sequelas graves, o impacto pode ser ainda maior, recaindo sobre familiares que assumem sozinhos os cuidados. “Não fica só naquela vítima direta. Os efeitos são muito mais amplos”, afirmou.

Ao encerrar o debate, Fátima Cecchetto propôs a realização de um novo seminário sobre o tema. Segundo ela, há muito ainda para se falar para retirar os profissionais da segurança da invisibilidade em que vivem.