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O crime sai às compras
Durante os anos de 2019 e 2022, o Brasil sofreu o maior derrame de armas de sua história. E isso aconteceu de forma legal, consequência da política de flexibilização do governo Jair Bolsonaro. Nesse período, o estoque de armas em posse de particulares passou de 1,3 milhão para 2,9 milhões. Muito mais do que garantir o direito de “todo cidadão de bem de andar armado”, estudos que analisam o período apontam que a flexibilização das regras de acesso alterou o mercado legal e criou novas oportunidades de desvio de armamentos para o crime organizado.
Para o policial federal Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador da Universidade de Coimbra, a principal consequência foi a criação de uma nova rota de abastecimento das organizações criminosas. Segundo ele, foi no governo de Jair Bolsonaro que, pela primeira vez, se permitiu a venda e posse de fuzis e outras armas de guerra para a população civil.
“O impacto que a gente já sente e vai sentir durante muito tempo, porque o tempo de vida útil de uma arma é de até 40, 50 anos. Essas armas que entraram em circulação nesse período causarão impactos na sociedade por bastante tempo.”
Segundo Uchôa, cerca de 40 mil fuzis passaram a ser vendidos a civis durante o período, enquanto mais de 600 mil pistolas 9 mm foram comercializadas em quatro anos. O pesquisador afirma que a mudança facilitou o acesso de organizações criminosas a armas que antes dependiam de tráfico internacional ou desvio de arsenais públicos.
“A verdade é que essa venda de armas possibilitou que o crime organizado e que organizações criminosas tivessem acesso internamente mais facilitado a armas que só era possível através de desvio de arsenais públicos ou acesso a redes internacionais de tráfico.”
O mecanismo, segundo ele, também passou a ser econômico. Um fuzil que poderia custar entre R$ 70 mil e R$ 100 mil no mercado internacional poderia ser adquirido internamente por meio de intermediários por R$ 15 mil ou R$ 20 mil. “Para mim, esse é o grande efeito que a gente ainda vai sentir por muito tempo”, afirma.
Para Uchôa, as restrições impostas pelo presidente Lula para a aquisição de armas no Brasil não são suficientes para enfrentar o problema já estabelecido. Ele defende a recompra.
“O combate ao tráfico de armas é central e eu acho que se for possível um novo governo Lula, a gente precisa debater um programa de recompra de armas. A gente precisa retirar de circulação, se não todas, esses fuzis que foram vendidos para as pessoas. Porque ninguém tem um fuzil para defesa pessoal.”
A nova cadeia de suprimentos do crime
A análise de Uchôa é reforçada pelo estudo “A Nova Cadeia de Suprimentos do Crime”, de Bruno Langeani e Carolina de Mattos Ricardo, publicado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Entre 2021 e 2025, a participação das pistolas nas apreensões passou de 20,7% para 27,8%, enquanto a dos fuzis subiu de 0,7% para 2%. A pesquisa também identificou armas mais novas chegando ao mercado ilegal: em São Paulo, a quantidade de armas apreendidas com até dois anos de fabricação quintuplicou; em Minas Gerais, decuplicou.
Bruno Langeani, gerente do Instituto Sou da Paz e especialista em controle de armas, aponta outra consequência: quanto maior o número de armas legalizadas dentro das residências, maior a possibilidade de parte delas ser desviada para o mercado ilícito.
“No momento em que você cresce a quantidade de lares com armas legalizadas, cresce também a parcela dessas armas legais que são desviadas para o mercado ilícito e que vão diretamente para a mão de criminosos.”
Langeani chama atenção para a coincidência entre o perfil das armas adquiridas legalmente e o das apreendidas pelas polícias. A pistola 9 mm, que se tornou uma das armas mais registradas por civis, também foi a que mais cresceu nas apreensões. Investigações citadas pelo pesquisador identificaram ainda organizações criminosas recrutando “laranjas” para adquirir fuzis de forma legal e mais barata.
Para os autores do estudo, o fenômeno representa uma mudança na própria cadeia de abastecimento. No Sudeste, 57,3% das armas apreendidas entre 2018 e 2023 eram de fabricação brasileira. A pesquisa denomina esse movimento de “substituição de importações”: diante de uma queda de 42,2% nas apreensões relacionadas ao tráfico internacional entre 2019 e 2022, o mercado doméstico passou a oferecer uma alternativa às rotas internacionais.
“O mercado legal nacional é a fonte predominante de armas para o crime”, afirmam Langeani e Carolina Ricardo.
Uma epidemia para a saúde pública
A consequência, porém, não se limita à segurança pública. Para a médica e pesquisadora Lígia Bahia, da área de saúde pública, o aumento da circulação de armas representa também uma questão sanitária.
“Nós temos estudos comprovando que o número de armas, o volume de armas, está correlacionado com mortes, inclusive com mortes por acidentes com armas de fogo. Há muitas evidências científicas sobre isso.”
A presença de uma arma também muda o resultado de conflitos que poderiam não terminar em morte. Estudos brasileiros mostram que ferimentos por armas de fogo podem produzir incapacidades permanentes e demandar atendimento pré-hospitalar, hospitalar e reabilitação, aumentando os custos para o SUS, as famílias e a sociedade.
Lígia resume o impacto para além das estatísticas de homicídio:
“Não é só uma questão de mortes. As sequelas provocadas por armas de fogo são muito diferentes das sequelas provocadas por outros tipos de agressão.”
E acrescenta:
“As crianças não apenas morrem. Elas também podem ter suas vidas paralisadas.”
Para os três pesquisadores, portanto, o problema não termina na quantidade de armas apreendidas. A discussão passa pela origem do armamento, pelos mecanismos de desvio, pela capacidade de rastreamento e, no campo da saúde, pelas mortes, ferimentos e sequelas produzidos por sua circulação. Como sintetizam Langeani e Ricardo: “Considerar a apreensão de armas como o grande resultado das ações de segurança pública não é suficiente.”
