
Foto: reprodução TV Globo
Imagem de turistas, acuados no alto do morro do Vidigal durante ação policial, revela como o Estado normaliza a violência no Rio.
A imagem de cerca de 200 turistas no alto do morro do Vidigal, na Zona Sul carioca, acuados por um tiroteio entre policiais e traficantes no início da manhã desta segunda-feira (dia 20), mostra a gravidade da rotina de violência que vem se naturalizando no Rio de Janeiro.
O confronto começou por volta de 5h, justamente em um dos horários mais procurados por trilheiros que vão ali acompanhar o nascer do sol. A pretexto de cumprir uma ordem de prisão contra traficantes da Bahia, policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil realizaram uma operação na comunidade que é ponto turístico da cidade. Mais uma vez, os criminosos reagiram com tiros de armas de alto calibre, disparados de pontos diferentes da favela, e interditaram a Avenida Niemeyer com um ônibus atravessado e contêineres da Comlurb, levando pânico à população e causando transtornos à cidade. Um helicóptero da polícia sobrevoou Vidigal em voos rasantes. Apesar do aparato, o alvo da operação não foi localizado.
Ataques a outros pontos que estão fora da região de confronto, fechamento de vias importantes, e muitas vezes ataques a ônibus e outros serviços já fazem parte do pacote de guerra entre a polícia e essas facções. A reação violenta de traficantes ou milicianos às operações policiais vêm escalando no estado. Na opinião de especialistas, elas são resultado da própria política de segurança, conforme explica a pesquisadora Carolina Grillo, do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Esses territórios se encontram sob o controle de grupos armados que há muitos anos são enfrentados por meio de operações policiais. Há um histórico de escalada dos confrontos armados no Rio de Janeiro porque quanto mais violentas são as operações policiais, mais esses grupos se armam, e, em resistência às ações do estado, começam a implementar barricadas e bloqueios de rua para impedir a ação do estado.”
Grillo avalia que ao optar por uma política de guerra permanente a esses territórios armados, o estado deixou de lado a missão de garantir a segurança pública nessas regiões:
“A escolha por um tipo de política pública centrado em operações construiu uma situação em que territórios foram relegados ao controle territorial armado, e a polícia deixou de realizar um patrulhamento de rotina. Esses territórios têm uma característica muito particular do Rio de Janeiro. Mesmo São Paulo, que é o berço do Primeiro Comando da Capital (PCC), que é a facção criminosa mais poderosa do país, não tem território nenhum onde a polícia não possa circular normalmente. Essa é uma característica que se estabeleceu no Rio de Janeiro sendo moldada pelas políticas públicas direcionadas ao controle do crime.”
A pesquisadora lembrou ainda que a política de enfrentamento armado ao crime não trouxe resultados permanentes, e sequer contribuiu para evitar a expansão territorial do crime. O monitoramento do Mapa Histórico dos Grupos Armados de 2025 revelou que hoje cerca de 4 milhões de pessoas vivem sob o controle ou influência dos grupos armados na Região Metropolitana no Rio de Janeiro.
“É um contingente populacional muito grande que hoje em dia tem suas garantias democráticas cerceadas. São pessoas submetidas a extorsões, taxas ilegais cobradas por esses grupos, a presença e circulação de pessoas armadas, muitas vezes, pessoas impedidas de acessar serviços públicos, de acessar o estado para mediar seus próprios conflitos.”
Outros dados reforçam o diagnóstico de que a política de enfrentamento armado do estado vem contribuindo para o agravamento da violência no Rio de Janeiro. De acordo com relatório do Instituto Fogo Cruzado, em março, apesar da queda de 13% nos registros de disparos, o número de pessoas baleadas cresceu, atingindo 139 vítimas no mês. Segundo o relatório, mais da metade dos tiroteios registrados no mês, 51%, ocorreu durante ações policiais.