
Rio de Janeiro (RJ), 07/09/2025 – Ana Paula Oliveira, mãe de Jonatha jovem negro morto por um policial militar em 2014 e cofundadora do Movimento Mães de Manguinhos, participa do Grito dos Excluídos e Excluídas na região central da cidade. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
“Eu só fui me despedir do meu filho no caixão”
Mãe de vítima da letalidade policial fala sobre o outro lado das ocupações territoriais pelo estado e justifica por que a ADPF das favelas é tão importante para milhões de moradores do Rio
“Eu sou nascida e criada na favela de Manguinhos, comunidade situada na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, vizinha da Fiocruz. Sou uma mulher negra, mãe de dois filhos, formada em Pedagogia. Em maio de 2014, meu filho Jonatha de Oliveira Lima, meu primogênito, saiu da nossa casa com uma travessa de pavê e a namorada. A travessa era para a minha mãe, que morava no caminho. E saíram: Jonatha, a namorada e a travessa de pavê. Eu tive que me despedir do meu filho dentro de um caixão, porque ele saiu, mas não teve o direito de voltar – foi alvejado pelas costas por um policial militar que trabalhava aqui na Unidade de Polícia Pacificadora, em Manguinhos. Havia um tumulto entre policiais e moradores, cansados das abordagens violentas. Um dos PMs, Alessandro Marcelino de Souza, matou meu filho”.
O relato de Ana Paula de Oliveira, fundadora do movimento “Mães de Manguinhos”, explica porque moradores de comunidades temem tanto os planos de reocupação de territórios dominados por grupos armados anunciados por governantes, mesmo vivendo sob o jugo de criminosos. Eles querem mudanças, sim, mas também querem uma vida digna e sem violência, querem a certeza de que não viverão sob a opressão policial e a garantia de que seus direitos fundamentais serão respeitados. Em especial, o direito à vida.
“Eu não acredito em ocupação da polícia. Ocupação na comunidade não é como na parte nobre da cidade, onde há respeito”.
Ana Paula acompanhou a chegada da UPP de Manguinhos, durante algum tempo, o mais importante projeto de reocupação realizado pelo estado.
“A UPP chega a Manguinhos em outubro de 2012, junto com o processo de remoção para as obras do PAC, o programa de Aceleração do Crescimento. Então, a partir daí os direitos dos moradores começaram a ser violados. Eram casas invadidas, abordagens violentas o tempo todo. Rondas diuturnas. As guarnições faziam rondas até de madrugada, então ocupavam lajes de moradores. Foi um processo de opressão e também de controle dos corpos de quem morava aqui. Mas nunca imaginei que chegasse a isso, meu filho, aos 19 anos, assassinado por um tiro pelas costas simplesmente porque passou por uma rua onde estava tendo uma confusão”.
Além da dor da perda, Ana Paula convive com a frustração de conviver com a impunidade:
“Antes de ser lotado em Manguinhos, esse mesmo policial havia sido preso por triplo homicídio. Mesmo assim, foi solto e foi trabalhar na UPP de Manguinhos. E, mesmo depois da morte do meu filho, continua solto, enquanto eu vivo presa a essa dor”.