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Abandonados à própria sorte

O 3º sargento Raphael Cabral foi promovido por ato de bravura e reformado após perder a perna num ataque com granada

 

Inauguradas no final de 2008, as Unidades de Polícia Pacificadora tinham por finalidade devolver o direito de ir e vir dos moradores de comunidades sob o domínio de facções criminosas armadas. Abraçado pela população, o programa chegou a contar, em seu apogeu, como 12 mil policiais. Entre eles, estava o soldado Raphael Cabral. Ele ingressou nos quadros da PM em 2011, aos 23 anos, e tentou realizar o sonho de ser um atirador de elite do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), mas uma lesão no joelho o impediu de prosseguir no curso. Antes de ser tornar policial, ele era instrutor de artes marciais e foi pentacampeão carioca de taekwondo. Quando atuava na UPP São João, ele desenvolveu um projeto esportivo com a comunidade e chegou a ter 200 alunos, mas, com o tempo, viu a corrupção crescer e o crime retornar e pediu transferência da unidade. A expansão desorganizada do programa para fins eleitorais, a corrupção e a omissão do estado foram, aos poucos, minando o projeto.  Em 2017, a lei orçamentária reduziu para reles R$ 10 mil a verba para a manutenção das 38 unidades, muitas delas precariamente instaladas em contêineres. Com o salário atrasado, Cabral estava lotado na base de lata da Vila Cruzeiro....

Penha, 11 de janeiro de 2017.

“Havia a notícia de que os criminosos atacariam a base que tinha uns três policiais. Não tinha banheiro, não tinha nada. Os policiais estavam totalmente largados ali, entregues para morrer. Era uma questão de decisão do crime. Então, a gente fez uma patrulha que levaria uns 30 minutos a pé por dentro da favela trocando tiro, até chegar a essa base para que não fosse atacada de forma covarde. Nesse dia, éramos 19 para combater 100, 200 criminosos.

A gente chegou lá, viu que tava tudo bem e começou a fazer o caminho de volta. Já estávamos quase saindo na avenida Nossa Senhora da Penha, quando eles arremessaram a granada e começou um tiroteio muito intenso. A granada me pegou em cheio e me elevou até o nível do fio do poste. Eu fui para cima, caí e bati com a cabeça. Acho que ficou até um buraco na cabeça.

Como nós éramos os dois primeiros homens da patrulha, o soldado Santos foi atingido por tiros. Ele ficou desorientado por causa do barulho, sentado no beco, com a perna ferida, enquanto os traficantes continuavam atirando. E eu fiquei sozinho no meio daquele ambiente. Não lembro direito, mas os colegas dizem que eu tive um espasmo, peguei o fuzil e fiz alguns disparos. Foi como um knockdown no esporte de luta: eu voltei a ficar desacordado, mas por alguns segundos apenas.

Retomei a consciência. Sabia que tinha sido atingido, sentia a perna pulsando, mas achava que tinha levado um tiro. Não tinha noção da gravidade. Quando tentei levantar a cabeça, percebi que não tinha mais nenhum comando sobre ela. Foi aí que me preocupei. Olhei e vi que o joelho havia sumido. Não tinha mais a parte do joelho. Simplesmente sumiu. A parte da canela para baixo estava intacta e havia um pouco da coxa para cima, mas o joelho tinha desaparecido.

Então cheguei à conclusão de que tinha morrido.

3º sargento da reforma da PMERJ, Raphael Cabral

3º sargento da reforma da PMERJ, Raphael Cabral

E estava tudo bem para mim. Minha mãe, três dias antes, tinha tido um sonho. Eu falei para ela provavelmente é o que vai acontecer, porque a gente está todo dia flertando com a morte, mas, se eu morrer, vou ter morrido fazendo o que acredito, que realmente acho que devo fazer. Porque, apesar de saber que não resolve, a gente sabe que, se não houver pessoas expostas, o crime toma a cidade em dois segundos.

Então, é um mínimo equilíbrio que a gente tenta fazer. É um idealismo? Sem dúvida. No dia em que perdi minha perna, eu estava sem receber meu salário. O salário da polícia estava atrasado havia bastante tempo. Eu estava pagando do meu próprio bolso para trabalhar. 

 

Eu tinha o treinamento do BOPE de muitas horas rastejando, inclusive com incentivos de chicotadas. E a gente se pergunta se esse tipo de treinamento é necessário. Quem está de fora olha para o BOPE como uma máquina de matar, de guerra. E se pergunta se é necessário esse tipo de treinamento.

Eu te digo que, para mim, foi. Porque, naquele momento, eu me lembrei do sargento falando para mim 'isso um dia isso vai salvar a tua vida. Rasteja’.

E foi o que eu fiz. Rastejei com a técnica que aprendi no boxe, com os cotovelos. Coloquei o fuzil no peito e fui me empurrando com a perna que tinha sobrado. Fiz um semicírculo e coloquei a cabeça sobre uma mesa de damas que havia em um banco.

Enquanto isso, o bandido continuava tentando me acertar.

Eram tiros e mais tiros.

Chegou o primeiro policial. Era um policial muito bom, muito experiente. Não era uma pessoa que se assustaria com pouca coisa.

Eu vi o olhar dele quando olhou para mim.

Vi o pânico no olhar dele.

Eu sabia da gravidade, mas não tinha noção do que ele estava vendo. Já estava tonto por causa da perda de sangue.

Depois ele me contou que, quando fiz aquele semicírculo, minha perna solta veio parar ao lado da minha cabeça. Eu não tinha essa noção. Minha perna estava literalmente do lado da minha cabeça.

Então, a cena de guerra que ele viu foi aquela: um amigo, alguém que estava disposto a dar a vida pela vida dele, naquela situação.

Ele tentou me arrastar. Eu ainda tive consciência de pedir que fizesse o torniquete, porque sabia que precisava daquilo. Tive consciência de baixar meu batimento cardíaco.

Eu não sou uma pessoa religiosa, mas acredito que existe alguma coisa. Pedi para ficar vivo pelo meu filho. Ele tinha três anos na época.

Senti que seria atendido. Tinha uma convicção interna de que não morreria ali.

Isso me fez me acalmar, baixar os batimentos, e ele fez o torniquete.

Quando comecei a recuperar a audição, percebi que os tiros continuavam passando muito perto.

 

Cabral com o filho em 7 de setembro

Cabral com o filho em 7 de setembro

Na polícia, a gente aprende uma expertise para saber a distância que o tiro está passando. Existe uma diferença no som. Se o tiro está fazendo apenas aquele ‘pá’, é porque está longe. Mas, quando passa próximo, faz um zumbido, como se cortasse o vento.

A uma distância de até cinco metros do corpo, você consegue escutar esse som.

Eu comecei a ouvir os tiros passando muito perto da cabeça dele enquanto ele fazia o meu torniquete.

Então ele me largou e foi para o beco trocar tiros com o traficante, para tentar cessar o fogo e salvar o outro colega, que ainda estava sentado, ferido.

Veio outro policial, que trabalhava com a gente havia pouquíssimo tempo. Esse colega que veio fazer o torniquete também tinha uma filha em casa.

Era uma pessoa que me conhecia havia relativamente pouco tempo. Eu entendo isso como hombridade, como idealismo de algumas pessoas que estão ali dentro, é isso.

Porque existem pessoas muito honradas ali dentro.

Uma coisa é você verbalizar ‘Eu faria isso por você. Eu daria a minha vida por você’.

Outra coisa é o policial quando está ali entrando na mira de um fuzil para salvar a sua vida. Isso é algo que a gente não experimenta em outro ambiente. É essa a visão da parte boa que eu vou defender da polícia até a minha morte.

Porque eu conheci uma parte que é simplesmente sensacional.

Esse policial começou a fazer meu torniquete e os tiros começaram a passar muito perto da cabeça dele.

E ele, olhando nos meus olhos, sorrindo, falou:

‘Cabral, eu só saio daqui contigo vivo. Ou morto’.

Eu nunca tive um dia ruim pela perda da minha perna. Nunca.”

O soldado Cabral foi a décima baixa em nove meses em uma equipe de 23 policiais lotados na base da UPP da Vila Cruzeiro, na Penha. Naquele mesmo dia, ele sofreu três paradas cardíacas, recebeu 12 bolsas de sangue (cerca de seis litros), passou por cinco cirurgias e ficou 23 dias internado.  Além dele, outros dois policiais saíram feridos naquela emboscada. 

 

 

Entre mortos e feridos, polícia militar tem duas baixas por dia

O depoimento do soldado Cabral reflete a história de milhares de policiais largados no front de uma guerra anunciada há décadas como política de governo e mantinda até hoje sem resultados. O projeto das Upps, que prometia mudar essa realidade, depois de esvaziado, seguiu o mesmo roteiro: bases com três ou quatro policiais que passam o dia em situação de risco e que são rendidos através de patrulhas com poucos homens, em ações que põem em risco de morte moradores e policiais; ou operações policiais pirotécnicas que sobem e descem as comunidades para confrontos pontuais, mas sem mudar a realidade cada vez mais perigosa das facções criminosas que continuam se expandindo.  Entre 1994 e 2025, 3.987 policiais militares do Rio de Janeiro morreram de forma violenta e outros 20.477 foram feridos. Ao todo, foram 24.464 baixas em uma tropa que, no período, reuniu cerca de 111.500 homens. Na média, são duas baixas por dia ao longo de 32 anos.

Os números fazem parte do levantamento do coronel PM da reserva Fábio Cajueiro, que presidiu o Grupo de Trabalho de Vitimização Policial e dirigiu a Diretoria de Assistência Social da Polícia Militar. Cajueiro começou a registrar dados sobre a vitimização da tropa em 1994, quando ainda era aspirante. Na época, conta, ele situação da tropa já era gravíssima.

“A gente ia, no máximo, a cada duas semanas, a um enterro ou hospital por um ferido grave.”

Ao longo dos anos, Cajueiro reuniu informações do Estado-Maior da PM, das áreas de pessoal e inteligência, do Instituto de Segurança Pública e de outras fontes institucionais. A série de 32 anos registra mortes e ferimentos e permite ao coronel estabelecer comparações com perdas registradas em conflitos militares.

A taxa de mortalidade da PMERJ no período foi calculada em 3,58%, contra 1,84% na Força Expedicionária Brasileira e 2,52% entre os militares americanos na Segunda Guerra Mundial. Entre os policiais militares fluminenses, a taxa de feridos chegou a 18,37%, contra 8,15% na FEB e 4,17% entre os americanos. Somadas mortes e ferimentos, a taxa de baixas da PMERJ chegou a 21,94%.

Para Cajueiro, os mortos – que ganham a atenção da imprensa – contam apenas uma parte da história. O avanço do atendimento pré-hospitalar permitiu que muitos policiais sobrevivessem a ferimentos que, no passado, poderiam ser fatais. O resultado é o crescimento de outra estatística: a dos policiais que sobrevivem, mas carregam sequelas.

“Aqueles que iriam engrossar a estatística de mortos, hoje estão engrossando a estatística de feridos.”

São amputações, lesões neurológicas, perda de mobilidade e outras deficiências permanentes. Para o coronel, o policial ferido permanece visível enquanto a emergência está sob os holofotes. Depois, pode desaparecer da atenção institucional.

“Eles ficam mais visíveis enquanto é recente o problema. Mas depois de muito tempo o cara começa a cair no esquecimento.”

Cajueiro reproduz a definição dada por um policial do Espírito Santo sobre essa sensação de abandono: “um brinquedo quebrado, jogado num quarto escuro e abandonado.”

Para tentar melhorar a situação dos policiais vitimizados e de suas familias, Cajueiro fundou a Associação Beneficente Heróis do Rio de Janeiro, que busca mudanças para garantir maiores benefícios e assistÊncias a esses policiais. 

 

 

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A saúde mental é outra dimensão da vitimização. Em 2017, segundo os dados apresentados por Cajueiro, a PMERJ gastou aproximadamente R$ 28,7 milhões com afastamentos psiquiátricos. Somados os custos registrados com policiais feridos por arma de fogo, mortos em serviço e seguros de vida, o levantamento chegou a R$ 43,7 milhões naquele ano, sem contabilizar integralmente despesas como cirurgias, medicamentos, fisioterapia, próteses e órteses.

Para Cajueiro, porém, os números oficiais não revelam toda a extensão do adoecimento. Ele afirma que o problema passou a ser mascarado pela necessidade de muitos policiais de trabalhar no Regime Adicional de Serviço, o RAS. Em 2017, mantinha uma equipe de três pessoas para analisar os afastamentos e conferir individualmente os registros.

“Esse problema, ele está hoje em dia extremamente mascarado, infelizmente.”

Segundo ele, a exigência de aptidão para participar do RAS produz uma situação contraditória:

“Houve um milagre no RAS. Um monte de gente estava doente. Como falou que tinha que estar apto, no dia seguinte, cego passou a enxergar, problema mental ficou curado, o cara que tinha perna ruim começou a andar e correr.”

 Cajueiro relata também a dificuldade enfrentada por agentes gravemente feridos para conseguir a reforma, inclusive em casos de lesões incapacitantes. Cita o caso de um policial que perdeu parte da calota craniana e massa encefálica, passou a sofrer de epilepsia, tonturas e perda de controle do lado esquerdo e, mesmo assim, continuava no Batalhão de Choque. Outro policial, que perdeu uma perna em uma explosão de granada, só conseguiu a reforma depois de questionar uma perícia que determinara seu retorno seis meses depois. Para Cajueiro, esses casos revelam o abandono do policial depois da vitimização: “O Estado foi o primeiro a abandoná-los: primeiro, naquela situação de extremo risco; e, segundo, porque depois abandona mesmo”.

Essa também foi, em parte, a história de Raphael Cabral. Depois de perder a perna, ainda no hospital, ele foi procurado por políticos para que se candidatasse a deputado, mas, depois de ouvir a mulher, recusou o convite. "Ela me lembrou que eu estava naquela situação exatamente por ser intransigente com a corrupção". Mesmo com uma lesão permanente e incapacitante ele também teve dificuldades para conseguir a reforma. Hoje é dono de uma empresa de marketing digital e vive com a família em outro país. 

O ex-combatente da Vila Cruzeiro reconhece a existência de policiais que abusam da autoridade e afirma que esse é, muitas vezes, o contato que a população tem com a corporação. "A gente vive num estado em que é muito comum, muito normal, que as pessoas se deparem 'com o lado ruim da polícia.” Mas diz que existe outra dimensão, menos visível: a do policial submetido continuamente à violência.

“Muitas vezes, quem está numa blitz está psicologicamente destruído, porque está trabalhando em alguns ambientes em que o próprio ambiente proporciona dinheiro e, muitas vezes, privilegia o corrupto.”

Para ele, o policial vive uma contradição permanente. Pela manhã, pode estar diante de um juiz; à tarde, conversar com um desembargador, um artista ou um socialite. Depois, volta ao morro para enfrentar um adolescente armado.

“Nós lidamos com isso.”

Cabral ficou apenas seis anos na ativa. Tempo suficiente, diz, para experimentar uma rotina que considera incompatível com qualquer avaliação sobre sua própria saúde mental. Ele lembra que,  depois de perder um amigo brutalmente assassinado, foi colocado pela própria polícia para trabalhar no enterro. Vinte e cinco minutos depois de sepultar o colega, estava novamente dentro da favela. “Você acha que a corporação, o Estado ou qualquer pessoa estava preocupada em saber se a minha cabeça estava saudável para continuar naquele ambiente? Não estava.”

Para Cabral, o trabalho policial coloca o agente diante de uma escolha impossível: proteger o cidadão e correr o risco de morrer ou agir de forma mais agressiva para sobreviver. “É um trabalho impossível.”

E resume o dilema: “Se eu faço, estou errado. Se não faço, estou errado. Se me corrompo, estou errado. Se vou para a guerra, estou errado.” Segundo ele, a perspectiva do policial permanece permanentemente entre a prisão, a expulsão da corporação, a morte ou a mutilação.

“Foi o que aconteceu comigo.”

Cajueiro reconhece que operações policiais sozinhas não resolverão a criminalidade e que apenas equipar melhor a polícia não resolverá o crime.  “Você só protege o cara para ele ser menos ferido e menos morto, mas realmente não é o que resolve”. Ele avalia, no entanto, que o confronto permanente é consequência da presença do crime organizado. Segundo ele, quando há uma organização criminosa forte em determinado território sem confronto, isso pode indicar corrupção ou ameaça a agentes públicos. Ele sustenta que o problema envolve muito dinheiro e que o combate precisa atingir a economia do crime, com integração entre os órgãos do Estado, compartilhamento de informações e bancos de dados e funcionamento articulado entre polícias, inteligência e Justiça. Na avaliação dele, a solução também passa por leis que desestimulem a prática criminosa, educação e urbanização das áreas dominadas pelo crime.