ARTIGO

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Ligia Bahia
A violência armada se caracteriza por mortes, ferimentos graves, estresse psicológico e problemas de saúde mental, que causam profundo sofrimento e perdas econômicas aos sobreviventes, suas famílias e comunidades em geral. Em 2023, mais de 268.000 pessoas morreram devido a ferimentos por armas de fogo e 72% dessas mortes ocorreram em países classificados como de baixo e médio nível no Índice Sociodemográfico.
Globalmente, homens sofrem uma carga maior de ferimentos por violência física com armas de fogo do que mulheres, especialmente na América Latina. As mortes relacionadas a armas de fogo afetam desproporcionalmente países onde a militarização, a violência de gênero e o crime organizado aumentaram e se interligaram significativamente nas últimas duas décadas, como Brasil, Colômbia, México e Venezuela.
O impacto social da violência armada inclui a supressão da atividade econômica e do crescimento, a diminuição da capacidade dos sistemas de saúde de fornecer atendimento adequado e o aprofundamento das desigualdades.
Para abordar a violência armada global, é crucial focar em questões-chave. Quais fatores predizem a incidência de violência armada e quais intervenções têm sido mais bem-sucedidas para romper os ciclos de violência armada? Como as regulamentações legais impactaram o uso de armas de fogo? Quais são os papéis dos atores políticos, econômicos e sociais na demanda e oferta de armas?
Debater essas questões pode orientar o desenvolvimento de intervenções e políticas para reduzir os danos da violência armada. São imensos desafios, e quatro deles serão destacados aqui.
Primeiro, há desafios relacionados à disponibilidade, acessibilidade e qualidade das informações públicas sobre violência armada, o que dificulta a produção de indicadores objetivos. Comparações internacionais sobre mortes causadas por armas de fogo são prejudicadas por atrasos na divulgação das estatísticas e por inconsistências entre as bases disponíveis. Diferentes métodos de coleta e múltiplos sistemas de registro em saúde geram discrepâncias em métricas fundamentais, como a contabilização de vítimas e a desagregação das informações por características sociodemográficas.[ii]
O acompanhamento dos registros de armas enfrenta obstáculos semelhantes, em razão da diversidade de sistemas de classificação adotados por instituições como polícias, forças armadas e órgãos alfandegários.
Em segundo lugar, a legislação governamental contribuiu para a redução da transparência dos dados públicos e para a diminuição – ou mesmo interrupção – do financiamento para pesquisas sobre violência armada em alguns países. Durante o governo presidencial brasileiro de 2019-2023, calibres de armas de fogo anteriormente restritos ao uso militar e policial tornaram-se disponíveis para civis, empresas de segurança privada e seguranças particulares. Além disso, quase 80% das armas de fogo foram registradas por meio do sistema menos transparente do Exército.
Os dados de registro de armas no Brasil são coletados por agências civis ou militares, e o acesso online e o nível de detalhamento dos dados variam substancialmente.
Apesar de a legislação garantir amplo acesso público a esses dados, a obtenção de informações detalhadas desses sistemas continua sendo um desafio.
Em terceiro lugar, a geopolítica e os interesses das principais superpotências exercem forte influência na pesquisa global sobre armas de fogo. China, França, Alemanha, Rússia e EUA são responsáveis pelas maiores exportações globais de armas, e o contexto mais amplo é moldado por estruturas regulatórias inadequadas e apoio inconsistente a restrições internacionais rigorosas sobre armas de fogo. Os interesses estratégicos e econômicos têm precedência sobre as preocupações com a saúde global, complicando os esforços para financiar iniciativas de pesquisa que mantenham a integridade e a confiança pública.
Finalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou sua abordagem para lidar com a violência armada. Durante o início dos anos 2000, a OMS instituiu o Departamento de Lesões e Prevenção da Violência, publicou relatórios que adotaram uma perspectiva política direta e direcionada, apoiou a eficácia da regulamentação de armas de fogo e incluiu uma análise de gênero da violência armada. No entanto, desde 2014, sua agenda se tornou mais restrita, considerando as armas de fogo como um dos vários meios letais potenciais, reduzindo a prioridade conferida às intervenções específicas relacionadas às armas de fogo e diminuindo os esforços diretos para desenvolver estratégias abrangentes de pesquisa e intervenção para combater a violência armada.
Superar esses desafios complexos para a pesquisa sobre violência armada exige esforços conjuntos e criativos. Nos EUA, o Gun Violence Archive (https://www.gunviolencearchive.org/) coleta e processa dados de várias fontes para fornecer um conjunto de informações abrangente sobre incidentes relacionados a armas de fogo. No sudeste e no leste da Europa, a Plataforma de Monitoramento da Violência Armada (https://www.seesac.org/AVMP) contém dados sobre incidentes com armas de fogo de instituições policiais, ministérios, mídia online e impressa e boletins de ocorrência, e desenvolveu uma metodologia para a análise multifontes. No Brasil, o Atlas da Violência (https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/05/atlas-violencia-2026-relatorio-completo.pdf) e diversos grupos de pesquisa reúnem dados e analisam informações sobre violência por armas de fogo.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/), entre 2015 e 2022, 73% dos homicídios registrados no país foram cometidos com armas de fogo. A persistência desse percentual evidencia a predominância desses artefatos na dinâmica dos crimes violentos letais. No intervalo de tempo entre 2017 e 2023, o número de armas registradas no Sistema Nacional de Armas (Sinarm/PF) aumentou 227% (de 637.972 para 2.088.048). Somadas as 963 mil armas de fogo pertencentes a caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) recadastradas na Polícia Federal (PF) com as armas com registro vencido no Sinarm (1,7 milhão), o número de armas de fogo atinge aproximadamente 4,8 milhões em posse da população civil. O aumento exponencial é fruto direto da flexibilização das políticas de controle de armas nos últimos anos.
Esforços coordenados entre a academia, o jornalismo investigativo e a sociedade civil têm potencial para estimular uma “frente unida” capaz de apresentar evidências científicas, engajar formuladores de políticas, influenciar a legislação governamental e mobilizar a opinião pública. Tais iniciativas já estão em andamento em diversos países e no Brasil. A Rede Universitária Segurança para Todos RJ – Artigo 5º é uma iniciativa que, entre outras tarefas, estuda e reúne competências acadêmicas e comunitárias para encarar os desafios sobre as relações entre violência armada e saúde.
Referencias Bibliográficas
Kuraner, S. E.; Kalayjian, A. Firearm violence in a national and international context: Policies, risk factors, and protective measures – An integrative review. Peace and Conflict: Journal of Peace Psychology, Washington, DC, 2026 May 4. DOI: https://dx.doi.org/10.1037/pac0000842.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/404406343_Firearm_Violence_in_a_National_and_International_Context_Policies_Risk_Factors_and_Protective_Measures-An_Integrative_Review. Acesso em: 9 jun. 2026.
Zadey, S.; Roberts, L. E.; Bushover, B.; Whalen, A. M.; Mehranbod, C. A.; Chihuri, S.; Eschliman, E. L.; Morrison, C. N. Firearm control regulations and firearm-related mortality: a cross-national ecological study. American Journal of Epidemiology, Oxford, v. 195, n. 5, p. 1488-1491, 2026 May.