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E se fosse você?

Claudio Rafael Landeiro foi acusado injustamente pelo furto de uma bicicleta e linchado em praça pública, em Copacabana

 

Morador linchado em Copacabana, confundido com ladrão de bicicletas, foi vítima de grupos clandestinos de vigilância que tentam legalizar na Câmara dos Deputados suas práticas.

E se o ciclista, flagrantemente inocente, Cláudio Rafael Landeiro, assassinado com 69 pauladas em um linchamento que durou nove minutos no coração de Copacabana, tivesse de fato furtado uma bicicleta? Seus assassinos seriam vistos como heróis justiceiros?

Cláudio Rafael saiu de casa no dia 11 de agosto com a bicicleta da irmã. Parado em frente a uma loja, foi abordado por um segurança, que perguntou se a bicicleta era sua. Ele respondeu que não. Entre esse momento e até mesmo durante o linchamento, não esboçou qualquer reação, não temeu a própria sorte. Por quê?

Porque era um cidadão comum e morreu acreditando em um sistema de justiça que prevê que ninguém será barbaramente executado em seu país, nem sequer acusado ou preso sem o devido processo legal. Provavelmente.

Entre os algozes de Cláudio Rafael estava um integrante de um grupo de vigilantes noturnos de Copacabana que circulam pelo bairro armados de porretes e armas de choque para combater pequenos ladrões, furtadores e importunadores. Há muitas denúncias sobre sua atuação, e pelo menos dois grupos são investigados pela Polícia Civil.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, um desses grupos afirma atuar na vigilância voluntária do bairro, e sai às ruas em busca de quem considera suspeito de roubos e furtos, principalmente no verão. Identificado como AGVC (Anjos da Guarda Vigilância Comunitária), o grupo é alvo de inquérito da 3ª Promotoria da Infância e Juventude do Rio de Janeiro.

Seu fundador, o lutador de artes marciais e candidato a deputado federal William Correia (DC), foi proibido pela Justiça do Rio, em maio passado, de participar, divulgar ou mencionar as ações. Em sua decisão, a juíza Lysia Maria da Rocha Mesquita, da 1ª Vara da Infância e da Juventude, determinou que William se abstivesse “imediatamente de organizar, participar, incentivar, induzir ou publicizar quaisquer atos de vigilantismo que envolvam crianças e adolescentes”.

Projeto na Câmara tenta legalizar ação de grupos 

Em sentido contrário à determinação judicial, também em maio, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4402/25, que cria o programa Anjos da Guarda de Vigilância Comunitária (AGVC). Protocolado em setembro de 2025 pelo deputado federal Doutor Luizinho (PP), o projeto foi inspirado no grupo de William Correia e pretende regulamentar o que o parlamentar definiu como vigilância comunitária desarmada e colaborativa, legitimando a atuação de grupos que circulam por Copacabana e outros bairros da Zona Sul com o objetivo declarado de coibir o crime.

O linchamento de Cláudio Rafael, no entanto, recoloca a discussão no lugar: o que acontece quando uma sociedade passa a acreditar que qualquer cidadão pode assumir, ainda que informalmente, a função de polícia, juiz e executor?

Para o antropólogo Lenin Pires, professor do Departamento de Segurança Pública da UFF, pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) e integrante da Rede Artigo 5º RJ, o episódio não pode ser compreendido como um acontecimento isolado. Ele é resultado de um processo mais profundo, relacionado à forma como a violência foi naturalizada no Rio de Janeiro e à maneira seletiva como o Estado historicamente exerce sua autoridade.

“A naturalização com que a violência, particularmente na Região Metropolitana, embalou sempre a relação do Estado com determinadas áreas mais carentes, mais marginalizadas, faz com que as pessoas percebam que não há nenhuma autoridade formal, estabelecida, governamental, que trate as pessoas em igualdade”, afirma.

Segundo Pires, durante anos essa violência esteve concentrada especialmente sobre moradores de favelas e outros territórios pobres. O que muda agora é que essa lógica começa a extrapolar esses territórios e aparece de forma explícita em outras áreas da cidade.

Reprodução de imagem de câmara de segurança

Imagens de câmara de segurança

“O que está acontecendo é que as pessoas estão normalizando a barbárie. Elas estão introjetando em si a ausência de leis e, portanto, salve-se quem puder, e cada um que imponha a lei do mais forte a partir da sua própria força.”

É nesse ponto que o caso de Cláudio Rafael ganha uma dimensão particularmente perversa. Entre os agressores havia jovens pretos e trabalhadores informais — justamente pessoas pertencentes a grupos historicamente submetidos à suspeição, à abordagem e à violência das instituições de segurança.

Para Pires, essa contradição revela como o racismo estrutural e a naturalização da violência podem fazer com que vítimas históricas dessa lógica passem a reproduzi-la contra outras pessoas.

“O uso da força está naturalizado. O uso da força ilegítima, desmedida, sem nenhum tipo de comprovação, que é o que acontece diuturnamente contra a população pobre, preta, favelada, é o que agora potenciais pretos, favelados, empregaram contra o outro, por acaso um rapaz que mora em Botafogo.”

A violência, nesse caso, não desaparece quando muda de mãos. Ao contrário: ela se reproduz.

“Você vê, o cara foi ali claramente na frente de um prédio, começou a agredir o sujeito. E depois saiu dali, faceiro, para fazer entregas. Três entregas. Depois voltou para casa ou foi para um bar, provavelmente sem sequer ter falado sobre o episódio com alguém.”

Ausência de limites 

A ausência de medo da punição é outro sinal do processo. Câmeras, algoritmos e sistemas de reconhecimento não foram suficientes para impedir a violência. O que parece ter faltado foi justamente a percepção de que havia um limite moral e legal que não poderia ser ultrapassado.

A frase “bandido bom é bandido morto”, diz Pires, “se enraizou e se entranhou no tecido da nossa sociedade”. E, quando essa ideia se torna aceitável, a diferença entre suspeita e culpa desaparece; a acusação vira prova e a punição pode ser aplicada antes mesmo de qualquer julgamento.

“Uma coisa muito perigosa é a pessoa se guiar apenas nos limites das suas próprias impressões”, afirma Pires. “Evidência não é prova. A lógica é simples e devastadora: alguém diz que uma bicicleta foi roubada; alguém vê um homem com uma bicicleta; a bicicleta não pertence a ele; portanto, conclui-se que é um ladrão. A partir daí a sentença é executada.”

É nesse mecanismo que o antropólogo identifica também a presença do racismo estrutural. Não necessariamente porque todos os envolvidos tenham a mesma posição racial da vítima ou dos agressores, mas porque existe uma longa história de associação entre pobreza, negritude, suspeição e violência.

A tragédia de Copacabana expõe, assim, uma inversão brutal: jovens que também poderiam ser alvo da suspeição policial reproduzem contra outro trabalhador uma forma de violência que há décadas atinge moradores das periferias e favelas.

Em nome de uma lei contratada

Para o historiador Lucas Pedretti, professor do IFCS/UFRJ e integrante da Rede Artigo 5º RJ, há ainda outra dimensão pouco discutida: a existência de seguranças particulares que recebem de comerciantes um mandato informal para exercer a força em espaços públicos, embora não tenham autoridade para isso.

“Esses seguranças não têm mandato para exercer a força em nome do Estado, em nome da cidadania, mas recebem esse mandato, em geral, por comerciantes locais”, afirma. Segundo ele, estabelecimentos que querem proteger uma clientela de elite e turistas acabam contratando pessoas sem formação ou preparo para atuar como agentes de segurança.

“Conferem a esses sujeitos um mandato de exercer a força nesses territórios, de forma absolutamente ilegítima do ponto de vista democrático, porque numa democracia não existe isso. Entes privados, particulares, não podem se autoatribuir a legitimidade para o uso da força, muito menos pagar terceiros para que eles o façam em seu nome.”

“Isso não se faz num vácuo do Estado”

Pedretti lembra que esses grupos não são uma novidade no Rio de Janeiro. A lógica, segundo ele, tem raízes históricas na formação de grupos de justiceiros e estruturas de segurança paralelas. “Essa é a lógica que sempre fundamentou a constituição de grupos que marcam a história do Rio de Janeiro, as polícias mineiras, esses grupos de justiceiros, a própria milícia, como a ideia de uma autodefesa comunitária.”

Mas esses grupos não atuam em um vácuo do Estado.

“Isso não se faz num vácuo do Estado”, afirma Pedretti. Segundo ele, a polícia sabe da existência desses seguranças e de outros episódios de violência que sequer chegam ao conhecimento público. “Não há aqui uma ausência do monopólio da força do Estado. Pelo contrário. Você tem aí uma negociação em que o Estado concede, autoriza, que esses entes privados exerçam a força.”

Para o pesquisador, a responsabilização criminal dos envolvidos no linchamento é necessária, mas insuficiente. “A existência desses grupos não é novidade, o Estado tem conhecimento dessa existência e não faz absolutamente nada para evitar que isso aconteça. Pelo contrário, fomenta isso.”

A responsabilidade, portanto, não deve parar nos autores da morte de Cláudio Rafael. “É fundamental chamar a atenção para a responsabilidade do Estado, que abre mão de exercer os seus poderes legitimamente constituídos em benefício desses atores privados, desses interesses privados.”

Cláudio Rafael morreu porque alguém decidiu que ele era um inimigo a ser abatido. A violência que o matou, porém, não nasceu naquela calçada de Copacabana. Ela é parte de um processo no qual a violência foi naturalizada, a suspeita passou a valer como prova e cidadãos passaram a se sentir autorizados a exercer uma função que pertence ao Estado.

A pergunta, portanto, não é apenas quem matou Cláudio Rafael. É que processo permitiu que homens comuns acreditassem ter o direito de matá-lo. E, se a resposta para a insegurança for entregar a cada indivíduo o direito de decidir quem é o inimigo e qual punição ele merece, a pergunta que fica é inevitável: quem será o próximo?