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A engrenagem política e administrativa que sustenta o crime organizado no Rio

Reprodução de campanha de Marcio Canella

 

Reeleito com a segunda maior votação do estado, Márcio Canella foi preso sob suspeita de lavar dinheiro para organizações criminosas ligadas ao tráfico e à milícia. Segundo a PF, esquema teria movimentado R$ 7,6 bilhões em seis anos. Sociólogo aponta estrutura de poder que combina violência, controle territorial e articulação política.

Durante a campanha que lhe garantiu a segunda maior votação do estado, o ex-prefeito de Belford Roxo e deputado reeleito Márcio Canella (União Brasil) afirmava que o tráfico de drogas não o intimidava e associava sua atuação à retirada de barricadas para permitir obras de pavimentação e urbanização. Ele recebeu 197.178 votos, mais de 60% deles em Belford Roxo. Mas inquérito da Polícia Federal sustenta que a remoção das barricadas teria feito parte de um acordo com lideranças do Comando Vermelho (CV). Segundo a representação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), traficantes teriam concordado em liberar áreas para obras públicas em troca do recuo de operações policiais e da devolução do controle territorial à facção após a conclusão dos trabalhos.

Canella e outros cinco investigados, entre eles o ex-chefe da Polícia Civil Marcus Vinicius Amim Fernandes, foram presos nesta quinta-feira (15/10), na oitava fase da Operação Unha e Carne. A investigação ganhou impulso a partir das determinações do STF no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, para aprofundar a apuração sobre organizações criminosas, lavagem de dinheiro e suas ramificações no poder público.

Canella é suspeito de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio como plataforma de lavagem de dinheiro para grupos ligados ao tráfico e à milícia. Segundo informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhadas à PF, o esquema teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.

Na decisão que autorizou medidas cautelares, o ministro Alexandre de Moraes descreve Canella como “patrono político e articulador de alto escalão” da organização criminosa investigada. A PF sustenta que ele atuaria como elo entre o núcleo econômico do esquema, agentes públicos e estruturas políticas, além de ter influenciado a indicação de pessoas para cargos estratégicos.  Entre as medidas, Moraes determinou o bloqueio de bens e valores e a suspensão das atividades de 112 empresas ligadas ao esquema. 

Uma estrutura de poder dentro do Estado

Para o sociólogo José Cláudio Souza Alves, do Observatório Fluminense da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e integrante da Rede Artigo 5º, as suspeitas precisam ser compreendidas em um contexto mais amplo de construção de poder político e territorial em Belford Roxo.

O pesquisador situa parte desse processo em 2021, quando, segundo ele, o então governador Cláudio Castro apoiou a instalação de um destacamento do 39º Batalhão da Polícia Militar na região do Complexo do Roseiral, área sob influência do Comando Vermelho. Souza Alves afirma que as operações policiais produziram mortes e desaparecimentos forçados e contribuíram para consolidar uma estrutura de poder local.

“É uma milícia por dentro da estrutura estatal”, define o sociólogo. Na avaliação dele, a dinâmica não se resume à atuação de grupos armados à margem do poder público, mas envolve a combinação entre força policial, alianças políticas e relações com organizações criminosas.

Para Souza Alves, a investigação sobre Canella revela uma possível articulação entre grupos armados distintos e agentes estatais. “O esquema do Canella hoje revelado revela que ele fazia acordo com os dois”, afirma, referindo-se às relações atribuídas ao político com milícias e com o Comando Vermelho.

A PF aponta ainda que Canella teria atuado para viabilizar a nomeação de Marcus Vinicius Amim para cargos de comando no Detran-RJ e na Secretaria de Polícia Civil, além de mencionar movimentações financeiras consideradas suspeitas. Os investigadores também apuram relações do parlamentar com Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, apontado como liderança do grupo miliciano Somos Comunidade.

Na análise do sociólogo, o controle territorial é sustentado não apenas pela força, mas também pela distribuição de benefícios, pela ocupação de espaços institucionais e pela construção de alianças políticas. Essa estrutura, afirma, permite ampliar o poder eleitoral e econômico de grupos que atuam em territórios submetidos à influência de organizações armadas.

Votos em áreas sob influência de grupos armados

Levantamento do pesquisador Bruno Pantaleão, da Fundação Getulio Vargas (FGV), publicado pelo UOL, indicou que 83% dos votos recebidos por Canella vieram de locais de votação situados em áreas sob controle ou influência de milícias e facções do tráfico. Do total, 32,7% foram registrados em localidades dominadas por milícias, outros 32,7% em áreas sob influência do CV e 17,6% em regiões associadas ao Terceiro Comando Puro (TCP).

A distribuição dos votos, isoladamente, não comprova intimidação, fraude ou interferência criminosa nas eleições. Quando considerada junto às suspeitas descritas pela PF e à análise de Souza Alves sobre a articulação entre poder público e grupos armados, porém, acrescenta uma dimensão eleitoral à investigação.

O caso também se insere em uma série de apurações sobre as relações entre políticos, agentes públicos e organizações criminosas no estado. Entre os investigados em outros procedimentos estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa Rodrigo Bacellar (PL-RJ) e o deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias. Já o ex-governador Cláudio Castro foi alvo da "Operação Sem Refino", que investiga fraudes na Refinaria de Manguinhos (Refit). Do mesmo grupo político, Castro teve que abandonar sua candidatura ao Senado pelo PL depois de condenado por abuso de poder político e econômico, num processo que levou à sua renúncia do governo do RJ e à sua inelegibilidade pelo TSE.

As acusações contra Canella e os demais investigados ainda dependem de apuração judicial. A investigação, no entanto, coloca em evidência uma questão central para a segurança pública fluminense: como interesses econômicos, alianças políticas e estruturas armadas podem se combinar para exercer influência sobre o Estado e sobre a vida de populações inteiras.