Anuário da Segurança Pública 2026 aponta fracasso dos estados no combate ao crime organizado
Ou o Brasil entende a urgência do pacto federativo da segurança pública ou os brasileiros de todo o país sentirão cada vez mais na pele o que sentem milhões de moradores do Rio de Janeiro: o medo de viver sob o jugo de organizações criminosas armadas.
O principal recado do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 é que o crime organizado se tornou cada vez mais integrado, diversificado e transnacional, enquanto a resposta do Estado continua fragmentada. Para os autores, enfrentar esse cenário exige fortalecer a atuação coordenada entre União, estados e municípios, integrando inteligência, investigação, financiamento, sistema prisional e cooperação internacional, em vez de manter políticas isoladas ou centradas apenas no confronto armado.
Os dados divulgados nesta quinta-feira (23) reforçam esse diagnóstico. Embora o investimento em segurança pública tenha alcançado R$ 163,1 bilhões, cerca de 80% dos recursos continuam sendo executados pelos estados, evidenciando a baixa capacidade de coordenação nacional. Enquanto isso, as organizações criminosas seguem ampliando seu controle territorial.
O Anuário cita a pesquisa "Medo do Crime e Eleições 2026", do Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, segundo a qual 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam que há facções criminosas ou milícias no bairro onde vivem. Para os pesquisadores, esse dado confirma que as facções deixaram de ser um problema localizado e passaram a influenciar a dinâmica da violência em todo o país.
Outro indicador aponta para a transformação da própria criminalidade. Os estelionatos consolidaram-se como o principal crime patrimonial do Brasil, com crescimento superior a 400% desde 2018. Ao mesmo tempo, os furtos passaram a superar os roubos, evidenciando a migração das organizações criminosas para mercados ilícitos digitais, especialmente aqueles ligados ao roubo de celulares e às fraudes eletrônicas.
No Rio de Janeiro, entretanto, a política de segurança permanece baseada no confronto. O estado registrou, em 2025, o maior número de policiais mortos de forma violenta do país. As vítimas passaram de 28 para 51, alta de 82,1%, enquanto a média nacional caiu 3,5%. No mesmo período, as mortes decorrentes de intervenção policial aumentaram de 703 para 798 casos, crescimento de 13,5%.
Ao apresentar o Anuário durante o evento Brasil Adiante, promovido pelo Estadão, o diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, afirmou que o país enfrenta um "grave problema de governança" na segurança pública. Para ele, é necessário criar mecanismos permanentes de inteligência compartilhada e coordenação entre os diferentes órgãos responsáveis pelo enfrentamento ao crime.
A urgência da PEC 18/2025
Conhecida como PEC da Segurança Pública, e já aprovada na Câmara dos Deputados, a PEC 18/2025 visa fortalecer a capacidade da União de coordenar a política nacional de segurança pública, constitucionalizando o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e buscando unificar ações e padrões de atuação entre os entes da federação. O projeto está parado no Senado Federal e enfrenta a resistência de governadores que temem perder autonomia. Pesquisadores defendem, no entanto, urgência em sua aprovação. Na avaliação do antropólogo Lenin dos Santos Pires, professor da UFF e diretor do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (InEAC/UFF), a PEC 18/2025 representa uma oportunidade para enfrentar justamente essa fragmentação institucional.
"A PEC representa uma oportunidade importante para enfrentar um dos problemas mais persistentes da segurança pública brasileira: a fragmentação da governança. Não basta observar apenas a redução ou o aumento dos homicídios. É preciso compreender como as instituições produzem esses resultados e quais incentivos orientam sua atuação."
Segundo o pesquisador, o caso do Rio de Janeiro ilustra bem esse problema. O crescimento das mortes violentas está fortemente associado ao aumento das mortes provocadas por intervenções policiais, que já representam cerca de um quinto das mortes violentas do estado. Ao mesmo tempo, a vitimização policial praticamente dobrou em apenas um ano.
"Esses dois fenômenos fazem parte da mesma dinâmica de confrontação permanente. Policiais e moradores dos territórios mais afetados acabam igualmente expostos a níveis extremamente elevados de risco."
Para Lenin Pires, a principal contribuição da PEC não está apenas na redistribuição de competências, mas na possibilidade de construir um modelo nacional de governança capaz de integrar inteligência, investigação, policiamento ostensivo e políticas preventivas. Segundo ele, também é preciso abandonar a falsa oposição entre eficiência policial e controle da letalidade.
"Quando cresce o número de policiais mortos e também o de pessoas mortas em ações policiais, isso dificilmente pode ser interpretado como sucesso operacional. É um indicativo de que o modelo vigente produz elevados custos humanos para todos."
Na mesma direção, a presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ADUFRJ), Ligia Bahia, afirma que o problema não se limita à expansão das facções, mas alcança a própria capacidade do Estado de controlar suas instituições.
"A segurança pública vem concentrando poderes autárquicos, anacrônicos e espúrios em nichos que não protegem a população; pelo contrário, a ameaçam. Precisamos aprimorar a organização federativa de uma área que, por definição, requer controle sobre quem exerce o controle."
Para ela, enfrentar o avanço do crime organizado exige fortalecer a coordenação federativa e os mecanismos democráticos de supervisão das forças de segurança. Sem isso, o país continuará investindo cada vez mais recursos em um modelo incapaz de reduzir a violência, proteger a população e garantir maior segurança aos próprios policiais.
