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Segundas intenções: o que está por trás da preocupação de Trump com as facções criminosas do Brasil

Em azul, os países de Centro Direita e Direita, alinhados com os Estados Unidos, e a Venezuela, país sob intervenção americana. Arte feita por IA.

 

Às vésperas das eleições gerais no Brasil, o presidente Donald Trump voltou a acusar o governo brasileiro de “falhar” no combate às facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas. Em carta ao Congresso americano, Trump afirmou que os grupos representam uma “ameaça crescente à paz e à segurança ao redor do mundo” e cobrou do governo brasileiro “medidas agressivas” para enfrentá-los. Mas, para especialistas, a pressão vai além de uma preocupação da Casa Branca com os efeitos do tráfico de drogas brasileiro sobre os Estados Unidos e pode transformar a segurança pública em instrumento de influência sobre as eleições brasileiras.

“É a transformação do discurso anticomunista dos anos 1980 no discurso de segurança nacional e pública dos anos 2010”, afirmou o sociólogo Michel Gherman, especialista em Relações Internacionais e integrante da Rede Artigo 5º. A análise é reforçada pelo New York Times, que, em artigo publicado em 28 de setembro, apontou a eleição brasileira como o maior teste, na América Latina, da estratégia de Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos no hemisfério ocidental e estreitar laços com governos e movimentos de direita.

Nesse contexto, a segurança pública, tradicionalmente tratada como questão doméstica, tornou-se eixo de tensão geopolítica entre os dois governos. Para Gherman, está em curso uma nova relação internacional baseada na associação entre segurança e extrema direita, que ele define como uma espécie de “imperialismo da segurança pública”. Segundo o sociólogo, a chamada guerra às drogas permite transformar problemas internos dos países latino-americanos em questões de segurança internacional, sob a alegação de que seus governos não conseguem controlar grupos criminosos ou mantêm relações com eles.

“Estamos falando da possibilidade concreta de intervenção dos Estados Unidos nos países da América do Sul, justificada a partir da ideia de que esses países não só não controlam os cartéis, como têm relações com eles”, afirmou. Para Gherman, a classificação de grupos criminosos como terroristas pode ampliar o alcance dessa pressão, ao criar uma justificativa para interferências que ultrapassariam o combate às organizações criminosas e atingiriam os próprios governos.

“Não se justifica somente entrar e combater os cartéis. Justifica-se entrar e derrubar os governos para que sejam substituídos por governos que possam, a partir de então, controlar os cartéis”, disse. O sociólogo resume esse processo como uma atualização do discurso anticomunista da Guerra Fria: “A transformação dos países da América Latina em ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos a partir da militarização, da nacionalização e da hierarquização da segurança pública”.

Gherman também relaciona essa concepção ao espaço ocupado pela segurança pública no discurso político da direita brasileira e ao papel das milícias. “O que os Estados Unidos estão propondo é que, no lugar dos cartéis de drogas, entrem as milícias. Ou seja, a terceirização do Estado, a transformação do Estado em milícias.” Para ele, essa visão encontra eco em setores da extrema direita brasileira, especialmente na família Bolsonaro: “É um Estado que terá a milícia substituindo o Estado nacional”.

A outra face do combate ao narcotráfico

Para o sociólogo Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da UERJ e integrante da Rede Artigo 5º, há uma distância enorme entre o discurso norte-americano de combate ao crime organizado e as próprias práticas dos Estados Unidos. Cano afirma que o governo norte-americano classifica grupos criminosos latino-americanos, incluindo organizações brasileiras, como narcoterroristas e, a partir dessa classificação, amplia sua justificativa para atuar fora de suas fronteiras.

“O governo norte-americano classifica alguns grupos criminosos na América Latina, incluindo o Brasil, como narcoterroristas e, a partir disso, se dá o direito que não tem legalmente, inclusive sob a própria legislação norte-americana, de agir em outros países.”

Para o sociólogo, entretanto, a retórica de combate ao narcotráfico precisa ser confrontada com a própria realidade norte-americana. Ele cita como primeiro exemplo a crise do fentanil.

“A crise do fentanil, que é a crise mais grave de saúde pública nos Estados Unidos, é provocada inicialmente e fundamentalmente pelo fentanil produzido nos próprios Estados Unidos.”

Cano reconhece que parte da droga chega de outros países, mas sustenta que uma parcela importante é produzida internamente e critica a atuação das empresas farmacêuticas no processo.

Em seguida, cita a Venezuela e o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández como exemplos do que considera uma aplicação seletiva da política norte-americana de combate ao narcotráfico.

“Há narcotraficante que ele supostamente combate e narcotraficante que ele protege.”

Cano também menciona casos de criminosos procurados por outros países que permanecem nos Estados Unidos apesar de pedidos de extradição. Para ele, esses episódios colocariam em questão a ideia de uma política uniforme de enfrentamento ao crime organizado.

“Tudo isso mostra que, na verdade, esse posicionamento supostamente muito duro contra o crime organizado não é mais do que uma ferramenta na política de dominação norte-americana sobre a região.”

O sociólogo chama atenção ainda para outro aspecto: o narcotráfico não termina na fronteira norte-americana.

“O narcotráfico acontece dos dois lados da fronteira. Há muita corrupção do lado de lá. Isso nunca aparece nas posições do governo norte-americano.”

Por fim, Cano questiona a própria finalidade da classificação de organizações latino-americanas como narcoterroristas.

“Essas classificações como narcoterroristas não estão sendo feitas para proteger nem o povo norte-americano contra a insegurança lá, nem o povo latino-americano aqui. Estão sendo feitas como uma ferramenta de intervenção na região.”

E conclui:

“A gente tem que ter muita consciência sobre isso e não se deixar iludir sobre essa pretensa dureza, como se ela pretendesse realmente proteger as populações. Ela pretende ser usada como instrumento de dominação.”