
Foto de Fernando Frazão - Agência Brasil
A violência política no Rio de Janeiro não apenas cresceu nos últimos anos como se estabilizou em níveis altos e passou a fazer parte do cotidiano das disputas de poder. É o que mostra o estudo “Violência e crime no cotidiano da política”, produzido pelo Observatório de Favelas e pelo Laboratório de Estudos sobre Política e Violência da Universidade Federal Fluminense.
O levantamento analisou casos ocorridos entre 2022 e junho de 2025 na Região Metropolitana e na Baía da Ilha Grande, além de uma série histórica de assassinatos políticos na Baixada Fluminense desde 2015. Ao todo, foram monitorados 267 casos de violência política, revelando um cenário persistente e disseminado. Entre julho de 2024 e junho de 2025, foram registrados 79 casos, exatamente o mesmo número do período anterior — o que equivale a um episódio a cada 4,6 dias.
Segundo o coordenador do monitoramento, o pesquisador André Rodrigues, do Laboratório de Estudos sobre Política e Violência da UFF, os dados mostram que a violência política no estado não só se estabilizou em níveis preocupantes como também assume formas variadas, mas com alto grau de gravidade. A maior parte dos casos envolve agressões verbais, ameaças e atentados contra a vida. No entanto, chama atenção a presença recorrente de crimes letais.
“O contexto político eleitoral na região metropolitana do Rio e na Baía da Ilha Grande é muito violento. Ter atuação política nessas regiões significa um risco grave para a vida, inclusive. A maioria das violências que nós sistematizamos na nossa base de dados são cometidas em agressões que envolvem arma de fogo. Temos assassinatos, atentados contra a vida. As execuções e atentados contra a vida aparecem entre os tipos mais frequentes, somando parcela significativa dos registros. Além disso, 30% das agressões envolveram o uso de armas de fogo, o principal meio empregado.”
Na Baixada Fluminense, o cenário é ainda mais crítico. Desde 2015, foram registradas 65 execuções de atores políticos, consolidando a região como epicentro da violência letal na política fluminense.
Eleições impulsionam os casos
O estudo confirma que os períodos eleitorais são os mais violentos. Em 2024, durante os meses que antecederam o pleito municipal, foram registrados 71 casos entre junho e outubro, concentrando o pico de incidência. Na série histórica da Baixada, o impacto é ainda mais evidente: durante o período eleitoral, ocorre um assassinato a cada 22,5 dias. Fora dele, a média cai para um a cada 75,6 dias.
“O ritmo de assassinatos mais que triplica durante as eleições, em especial nos seis meses que antecedem o pleito, indicando forte relação entre disputa política e uso da violência como estratégia.”
O estudo revela que a violência é ainda maior nas eleições municipais.
“Temos relatos de candidatas que diziam que em seu município de origem era muito difícil elas se apresentarem como candidatas porque isso representaria um risco à vida. Algumas que nós entrevistamos optaram por apresentar a candidatura a deputado estadual, considerando que era um risco a vida apresentar a candidatura como vereadoras. Segundo relatou uma delas, quaisquer 50 votos que elas disputassem com os chefes locais, elas teriam suas vidas ameaçadas.”

André destacou que a curralização do voto está presente na política brasileira desde a República Velha, e se atualiza no contexto democrático da política local fluminense, principalmente nos bairros da zona oeste, alguns bairros da zona norte da capital e os bairros da região metropolitana, destacadamente a Baixada Fluminense.
“Outra entrevistada contou que muitas das vezes, as pessoas podiam não saber exatamente qual é o grupo armado que tem influência e um certo controle nos bairros, mas todas as pessoas sabiam quem era o político que mandava ali. Então, esse processo de curralização, se constitui naquilo que a gente chama no estudo de clientelismo homicida. Esse é um modo muito tradicional e recorrente de atuação política e de formação do poder político no nível local. E isso, obviamente, assim como acontecia na República Velha, vai se desdobrar para os outros níveis de poder, para o poder estadual e inclusive para o poder federal, uma trajetória marcada pelo acesso ao poder armado.”
Ódio, racismo e gênero
Outro achado relevante é a presença crescente de violência com motivação de ódio. Do total de casos, 33% têm esse tipo de motivação, envolvendo racismo, misoginia e intolerância política. A pesquisa mostra ainda um avanço preocupante da violência contra pessoas negras. Entre 2022 e 2024, os casos contra esse grupo quase dobraram, impulsionados principalmente por execuções, agressões físicas e ameaças. Mulheres também aparecem como alvo crescente. No último ciclo analisado, o número de vítimas do sexo feminino triplicou, especialmente no contexto eleitoral.
Corrobora com os resultados da pesquisa, o trabalho do Grupo de Trabalho (GT) de Prevenção de Combate à Violência Política de Gênero do Ministério Público (MP) Eleitoral, que acompanha mais de 300 casos em todo o país de violência política contra mulheres. Cerca de 50 denúncias já foram apresentadas à Justiça pedindo a punição de agressores. Vários casos envolvem ataques e ofensas feitas pela internet ou nas redes sociais, ameaças à família ou à cassação de mandato, ataques ao corpo ou à sexualidade, sempre com o objetivo de deslegitimar, silenciar e excluir mulheres do espaço político.
“A violência de raça e gênero não é uma exceção, mas uma regra social. A mulher que entra na política já aguarda o momento em que vai enfrentar essa violência.” denunciou a coordenadora adjunta do GT, Nathalia Mariel.
Policiais e políticos como agressores
O estudo “Violência e crime no cotidiano da política” revela ainda que a violência política não é apenas praticada por agentes externos, mas também por integrantes do próprio Estado. Dos 267 casos analisados, 58 tiveram policiais como autores; e 59 tiveram políticos como agressores. Além disso, a repressão policial a manifestações políticas aparece como uma das formas mais recorrentes de violência, sendo o segundo tipo mais frequente no levantamento.
Há também uma relação direta entre violência e controle territorial. Casos envolvendo políticos ocorreram majoritariamente em áreas dominadas por milícias, enquanto ações violentas de policiais se concentraram em territórios sob influência do tráfico. O estudo aponta ainda a atuação de grupos armados como fator central. Cerca de 10% dos casos têm participação direta desses grupos, evidenciando a conexão entre mercados ilegais e disputas eleitorais.
Esse cenário reforça a tese de que a violência não é um desvio, mas um recurso político. Em muitos territórios, o poder local é estruturado a partir do controle armado e da intimidação de eleitores e adversários.
Segundo o pesquisador João Trajano Sento-Sé, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, a pesquisa revela que, em áreas dominadas por grupos armados, a política está profundamente conectada a interesses econômicos ilegais.
“Existe um cruzamento entre disputas de natureza econômica, de atividades ilegais e disputas políticas. Essas atividades incluem o controle de serviços como gás, internet e transporte alternativo — mercados frequentemente explorados por milícias e que se articulam diretamente com a política local. Todos os indícios mostram que a disputa política e a disputa por atividades ilegais estão inter relacionadas em vários municípios do Rio”, diz.
Um dos exemplos analisados é o caso do ex-vereador Jerominho, ligado à milícia Liga da Justiça. Após sair da prisão e tentar retomar influência política e econômica em seu território, acabou assassinado.
“O esforço dele de retomar a influência política estava ligado também às atividades econômicas ilegais. Isso é muito mais recorrente do que aparece”, afirma o pesquisador.
Para Sento-Sé, há um problema central: a dimensão política desses crimes costuma ser ignorada.
“As implicações políticas desses casos raramente aparecem nas peças judiciais. O que se destaca são disputas comerciais locais”, explica.
Segundo ele, a própria pesquisa, baseada em grande parte em reportagens, consegue revelar essas conexões que nem sempre são reconhecidas oficialmente. Esse cenário expõe, ainda, o papel das câmaras municipais como porta de entrada para grupos ligados ao crime.
“As casas legislativas municipais têm sido uma porta de entrada forçada por figuras vinculadas a atividades criminais. E essa dinâmica se intensifica em períodos eleitorais, quando há uma sobreposição entre disputas territoriais por mercados ilegais e pelo controle do voto”.
Para ele, o cenário revela um déficit democrático profundo.
“Nem os preceitos básicos de um regime democrático são respeitados. Há áreas interditadas à atuação política de determinados grupos”, afirma.
Sento-Sé também pontua a participação de agentes de segurança como agravante. Segundo ele, policiais — da ativa e aposentados — aparecem com frequência em episódios de violência política, seja como autores ou vítimas.
“A violência é uma moeda política nessas disputas locais”, resume.
Ele aponta ainda uma relação “perversa” entre crime, política institucional e agentes do Estado, que se retroalimentam no controle territorial e eleitoral.
“Nesse cenário, o controle do voto passa a ser um elemento central de poder. Em áreas dominadas por grupos armados, candidatos adversários muitas vezes não conseguem sequer fazer campanha. Se você é de outro grupo político, não vai fazer campanha ali, não vai ter acesso àquela região”, afirma.
Por fim, o pesquisador rejeita a ideia de apatia política da população e aponta o medo como fator determinante.
“Não é apatia, é medo. Enfrentar essas máquinas de produção de voto e de riqueza baseadas na violência gera risco”, defende Sento-Sé.
André Rodrigues acrescenta que apesar do controle do voto em territórios com a presença de grupos armados, são nessas comunidades, nas periferias brasileiras que se organizam o movimento negro, que se organizam movimentos LGBTQIAPN+, que se organizam movimentos de mulheres.
O pesquisador defende que apesar de enraizada na cultura política, ainda é possível quebrar o paradigma da violência eleitoral no estado:
“Primeiro passo é empreender uma política de segurança pública que tenha um controle rigoroso do uso da força letal pelas polícias, em resumo. Porque isso vai se desdobrar em uma série de fatores que alimentam as redes criminosas e as relações entre política e violência. Segundo, é necessária uma articulação integrada entre o Ministério Público do Rio de Janeiro, o sistema de justiça criminal no controle e na fiscalização de campanhas que tenham indícios de articulação com poderes armados e com constrangimento e o controle através da força, o controle do voto.
Segundo ele, uma outra frente para a mudança está na fiscalização das candidaturas:
“Tem que ter uma atenção especial para a participação de policiais na política em candidaturas para cargos eletivos, com quarentena para a saída da força de segurança pública das Forças Armadas e entrada na política e o impedimento de utilização do nome do cargo policial ou do cargo militar nas urnas.”
Por fim, André Rodrigues aponta o uso da inteligência policial nas ligações entre o crime organizado e suas articulações políticas:
“E a outra frente é o combate ao crime organizado que investigue efetivamente as redes de negócio do crime pensando nos afluxos financeiros e nas articulações entre o crime e o mundo formal e entre o crime e a política, preconizando, portanto, a investigação qualificada e não as operações altamente letais. Esses são caminhos de base para começar um trabalho que reverta a crescente articulação entre violência e política institucional no cotidiano político do Rio de Janeiro”, conclui.