ARTIGO

Palácio Tiradentes - foto de Rovena Rosa / Agência Brasil
João Trajano Sento-Sé, Ignacio Cano e Lenin Pires
Entramos na reta final do primeiro turno das eleições no Rio de Janeiro e aquilo que ficou ausente durante a campanha parece gritar mais do que o esquálido debate sobre planos de governo: a política desapareceu do cenário, mas é preciso reconstruir o processo que nos levou até aqui.
Lembremos de algumas imagens veiculadas no período pré-eleitoral. Nelas apareciam juntos candidatos a diferentes cargos do aparato institucional. O ainda governador, que se preparava para um pleito posteriormente abandonado por problemas com a justiça, aparecia com seu pretenso sucessor e diversos postulantes a cargos eletivos, todos sorrindo, confiantes.
Entretanto, a coalizão que governou o estado do Rio de Janeiro na última década e se articulou para a sucessão foi quase totalmente varrida por uma enxurrada de denúncias de vínculos com o crime. Às repetidas suspeitas de conluio com as milícias, atestadas pela distribuição de cargos e honrarias, somaram-se investigações sobre conexões igualmente estreitas com grupos do varejo das drogas. Os escândalos atravessaram os três poderes da institucionalidade estadual. Atingiram o governador, o presidente da Assembleia Legislativa e deputados, chegando até ao judiciário.
O noticiário policial invadiu as páginas sobre política. Candidaturas para muitos cargos, do legislativo estadual à presidência da República, passando pela Câmara, Senado e governo do estado, foram atingidas pelas ligações perigosas atestadas pela Polícia Federal. É cedo para afirmar que a coalizão que abriu as portas da política fluminense para o crime está superada.
Algumas das figuras públicas mais engajadas na retórica da guerra às drogas, que afirmam defender os cidadãos de bem e combater os “vagabundos”, viram suas conexões com o crime organizado levadas à luz do dia, comprometidas com aquilo que alegam combater. Revelaram-se parceiras orgânicas de criminosos que oprimem populações inteiras nas áreas em que mantêm seu poder baseado no medo e nas armas. Depois de quase dez anos celebrando operações policiais com numerosas mortes, defendendo a redução da maioridade penal e a definição de grupos criminosos como organizações terroristas, algumas dessas lideranças são reconhecidas como parte de uma associação entre crime e política. Seria irônico se acabassem atingidas pelo endurecimento penal que professam ferventemente. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da ALERJ, votou a favor da premiação de policiais que matassem supostos bandidos, antes de ser preso acusado de ligações com o Comando Vermelho. A suposta dureza contra o crime parece uma cortina de fumaça para ocultar interesses escusos.
Durante o processo eleitoral, os escândalos levaram o estado a ser governado pelo presidente do Tribunal de Justiça, elevado à chefia do poder executivo pelo vácuo de autoridade decorrente de investigações e prisões contra aqueles que lhe antecediam na linha sucessória. Abriu-se uma oportunidade para a promoção de um “choque de gestão”, avaliado pela população como muito positivo. Pautado por inegáveis virtudes administrativas, o curto governo tampão explicitou a indigência imposta ao estado do Rio de Janeiro nos últimos anos. Fazendo o básico, deixou patente o quanto o grupo político que busca a hegemonia no estado promoveu o sequestro da política pelo crime, saqueando os cofres públicos, violando direitos fundamentais e abastardando a democracia. Em última instância, esse grupo promoveu a colonização do Estado pelo crime organizado. E, agora, miram Brasília. Precisamos evitar que essa década de degradação se torne método no Rio de Janeiro e no país como um todo. Estamos todos sob esse risco.